No passado sábado 2 de Fevereiro de 2013 participei no meu primeiro Brevet Randonneurs Mondial (BRM): o L'Antique 200.
Mas o que é um BRM? Em palavras simples, é um evento de ciclismo de longa distância não competitivo.
Na realidade é muito mais do que isso. É uma celebração da perseverança conseguida através da finalização de uma viagem díficil. No caso dos BRM essa viagem faz-se de bicicleta e tem no minimo 200 quilómetros.
As regras dos BRM - dísponiveis [aqui] - explicam em mais detalhe o espirito randonneur.
Os BRM são abertos a qualquer pessoa - "randonneur" - coberto por uma apólice de seguro de responsabilidade civil, membro ou não de um clube, associação ou federação. Qualquer participante com idade inferior a 18 anos deve ainda apresentar autorização do encarregado de educação.
Qualquer veículo de propulsão exclusivamente humana é permitido.
Durante o evento, cada "randonneur" é considerado como estando em passeio pessoal. Assim sendo o "randonneur" deve respeitar todas as normas de trânsito aplicáveis e obedecer a todos os sinais de trânsito.
Para circulação durante a noite, os veículos devem estar equipados com luzes dianteiras e traseiras fixas firmemente ao veículo. Luzes intermitentes (frontais ou traseiras) não são permitidas.
O uso de um colete reflector também é obrigatório - tanto de dia como de noite.
Cada "randonneur"deve ser auto-suficiente. Não são permitidos carros de apoio de qualquer tipo no percurso. Apoio pessoal só é permitido nos postos de controle definidos pela organização. Qualquer violação desta exigência resultará em desclassificação imediata.
Nenhum "randonneur" pode ser considerado como o líder do grupo. Todos os sinais distintivos (braçadeiras, camisolas,...) ou títulos (por exemplo "chefe de fila"...) não são permitidos. Todos os "randonneurs" são obrigados a comportar-se de maneira civilizada e respeitar os costumes locais no que diz respeito ao decoro.
Existem limites de tempo totais para cada brevet de acordo com a distância. Estes são: (em horas e minutos, HH:MM) 13:30 para 200 km, 20:00 para 300 km, 27:00 para 400 km, 40:00 para 600 km, e 75:00 para 1000 km.
Qualquer fraude ou violação intencional das regras resultará na exclusão do piloto de todos os eventos patrocinados pelo Audax Club Parisien (ACP).
E então como foi o evento?
No espirito da "celebração da perseverança" foi simplesmente a coisa mais dificil que eu já fiz em cima de uma bicicleta. E foi também aquela que me deu mais prazer !
Teoricamente o evento seria um desafio fisico apesar de ser feito nas planicies do "meu Ribatejo" - a L'Antique 200 tinha 210 km de extensão, e o máximo que eu tinha feito foram os 200 km do "Tróia - Sagres".
Para ajudar à festa também havia o facto de irmos percorrer algumas estradas com piso não muito bom para "biclas" modernas de "plástico", incluindo 1,5 km de terra batida e muitos mais quilómetros de "pávee". Enfim um autêntico "Paris - Roubaix" !
Perante tal desafio a preparação começou no inicio do ano, com muitas horas em cima dos rolos - o tempo neste mês de Janeiro não esteve propicio para muitas saidas de bicla - e com uma revisão completa à "burra" - incluindo a substituição da corrente e do guiador de origem por um guiador compacto bem mais confortável e ergonómico.
Ao contrário do "Tróia - Sagres", desta vez consegui motivar mais malta do NCA: o Zé Almeida, o Luis Inácio e o Jacob Souza resolveram também participar no evento.
Assim sendo às 7 da manhã lá estavámos todos no Parque de Campismo de Vila Franca de Xira para o "bike e randonneur check": verificação das luzes frontais e traseiras (modo fixo é obrigatório...), colete reflector com norma "EN 1150" ou "EN 471", e briefing de segurança: cunprir as regras de trânsito e disfrutar da viagem.
O começo da viagem foi abençoado com uma chuva ligeira, o que no meu caso já é um hábito: qualquer prova ou evento em que participo tem que ter uma chuvada pelo meio... Acho que o IPMA ou o Windguru podiam pagar-me para eu lhes dizer em que dia é que vai chover na zona de Portugal onde eu planeio andar de bicicleta :-)
Logo à saída de Vila Franca de Xira, virámos para as estradas secundárias da leziria ribatejana que nos acompanhariam até Constância. Até Santarém, a única dificuldade do dia era a subida das Ónias até à antiga Scálabis dos romanos. Aí, após uma visita às Portas do Sol que proporcionou uma vista magnifica sobre o lânguido Tejo a correr por entre as antigas povoações árabes do Ribatejo - Alpiarça, Almeirim, ... - carimbou-se o Brevet no primeiro posto de controlo.
De Santarém até à Golegã foi um saltinho apenas difilcutado pelo aparecimento de um Vento do Norte ("Ventos do Norte... Ventos de alegria... Ventos de bem-estar... ") e de um furo na "bicla" do Zé Almeida. Pensando bem, dadas as estradas que passámos, apenas dois furos em 210 km para quatro "randonneurs" não é nada mau !
Mudada a câmara de ar, seguimos até a Quinta da Cardiga e após respondermos a mais uma pergunta do Brevet ("Quantos candeeiros possui a entrada principal da Quinta da Cardiga?", mais uma originalidade interessante dos BRM...) e anotarmos a hora de passagem, "atacámos" o quilómetro e meio de estrada em terra batida que por acaso também faz parte de um Caminho de Santiago português.
Chegados a Constância aproveitámos para retemperar as forças com uma boa sopa de espinafres, uma "sandes" de carne assada no caso do Zé Almeida e uma Tijelada no meu caso. O Luis Inácio preferiu completar a sopa com um banho de sol que entretanto tinha aparecido para aquecer as almas...
De Constância até Muge - a "nortada" precoce que noutros tempos levou os portugueses por esse Oceano Atlântico abaixo até aos confins de África - carregou-nos a nós pelo Ribatejo abaixo quais caravelas modernas em mares antigos...
As paisagens simples mas fenomenais do Ribatejo profundo se calhar só são bem apreciadas por quem lá viveu nos tempos em que semear batatas, plantar couves, semear melão e apanhar azeitona para depois fazer azeite num lagar tradicional marcavam o correr das estações do ano. Outros tempos, outra pessoas e outro "eu"...
Voltando ao presente e à L'Antique, de Muge até à Azambuja, atravessámos o nosso Cabo das Tormentas: o nosso Adamastor era a "nortada" que até aí tinha sido a nossa melhor companheira. O percurso sinuoso por entre campos abertos fazia "andar ao vento" parecer que estavámos a pedalar dentro de água tal a força do vento...
A nuvem escura que surgiu vinha tão carregada que encheu de medo os navegantes. O mar, ao longe, fazia grande ruído ao bater contra os rochedos. Vasco da Gama, atemorizado, lança voz à tempestade perguntando o que era ela, que ela lhe parecia mais que uma simples tormenta marinha.
Mas o gigante vento Adamastor não foi o único obstáculo por aquelas alturas: as sereias da dúvida também apareceram para um teste à nossa resolução e convicções: porque raio é que um tipo faz 210 km em cima de uma bicicleta contra "ventos e marés", em vez de estar descansado em casa a "pastelar" em frente à televisão ou a fazer qualquer outra coisa mais fácil? Porque o caminho faz-se andando e o homem precisa de desafios...
Enfim, ao fim de cerca de 10 horas e pico - das quais 8 horas e 15 minutos a pedalar - lá regressámos ao ponto de partida em Vila Franca de Xira com o extâse de "missão cumprida" a percorrer as pernas fatigadas!
Próxima viagem no "caminho das descobertas:" "Planicies e Montados 300" no dia 2 de Março !
Mas o que é um BRM? Em palavras simples, é um evento de ciclismo de longa distância não competitivo.
Na realidade é muito mais do que isso. É uma celebração da perseverança conseguida através da finalização de uma viagem díficil. No caso dos BRM essa viagem faz-se de bicicleta e tem no minimo 200 quilómetros.
As regras dos BRM - dísponiveis [aqui] - explicam em mais detalhe o espirito randonneur.
Os BRM são abertos a qualquer pessoa - "randonneur" - coberto por uma apólice de seguro de responsabilidade civil, membro ou não de um clube, associação ou federação. Qualquer participante com idade inferior a 18 anos deve ainda apresentar autorização do encarregado de educação.
Qualquer veículo de propulsão exclusivamente humana é permitido.
Durante o evento, cada "randonneur" é considerado como estando em passeio pessoal. Assim sendo o "randonneur" deve respeitar todas as normas de trânsito aplicáveis e obedecer a todos os sinais de trânsito.
Para circulação durante a noite, os veículos devem estar equipados com luzes dianteiras e traseiras fixas firmemente ao veículo. Luzes intermitentes (frontais ou traseiras) não são permitidas.
O uso de um colete reflector também é obrigatório - tanto de dia como de noite.
Cada "randonneur"deve ser auto-suficiente. Não são permitidos carros de apoio de qualquer tipo no percurso. Apoio pessoal só é permitido nos postos de controle definidos pela organização. Qualquer violação desta exigência resultará em desclassificação imediata.
Nenhum "randonneur" pode ser considerado como o líder do grupo. Todos os sinais distintivos (braçadeiras, camisolas,...) ou títulos (por exemplo "chefe de fila"...) não são permitidos. Todos os "randonneurs" são obrigados a comportar-se de maneira civilizada e respeitar os costumes locais no que diz respeito ao decoro.
Existem limites de tempo totais para cada brevet de acordo com a distância. Estes são: (em horas e minutos, HH:MM) 13:30 para 200 km, 20:00 para 300 km, 27:00 para 400 km, 40:00 para 600 km, e 75:00 para 1000 km.
Qualquer fraude ou violação intencional das regras resultará na exclusão do piloto de todos os eventos patrocinados pelo Audax Club Parisien (ACP).
E então como foi o evento?
No espirito da "celebração da perseverança" foi simplesmente a coisa mais dificil que eu já fiz em cima de uma bicicleta. E foi também aquela que me deu mais prazer !
Teoricamente o evento seria um desafio fisico apesar de ser feito nas planicies do "meu Ribatejo" - a L'Antique 200 tinha 210 km de extensão, e o máximo que eu tinha feito foram os 200 km do "Tróia - Sagres".
Para ajudar à festa também havia o facto de irmos percorrer algumas estradas com piso não muito bom para "biclas" modernas de "plástico", incluindo 1,5 km de terra batida e muitos mais quilómetros de "pávee". Enfim um autêntico "Paris - Roubaix" !
Perante tal desafio a preparação começou no inicio do ano, com muitas horas em cima dos rolos - o tempo neste mês de Janeiro não esteve propicio para muitas saidas de bicla - e com uma revisão completa à "burra" - incluindo a substituição da corrente e do guiador de origem por um guiador compacto bem mais confortável e ergonómico.
Ao contrário do "Tróia - Sagres", desta vez consegui motivar mais malta do NCA: o Zé Almeida, o Luis Inácio e o Jacob Souza resolveram também participar no evento.
Assim sendo às 7 da manhã lá estavámos todos no Parque de Campismo de Vila Franca de Xira para o "bike e randonneur check": verificação das luzes frontais e traseiras (modo fixo é obrigatório...), colete reflector com norma "EN 1150" ou "EN 471", e briefing de segurança: cunprir as regras de trânsito e disfrutar da viagem.
O começo da viagem foi abençoado com uma chuva ligeira, o que no meu caso já é um hábito: qualquer prova ou evento em que participo tem que ter uma chuvada pelo meio... Acho que o IPMA ou o Windguru podiam pagar-me para eu lhes dizer em que dia é que vai chover na zona de Portugal onde eu planeio andar de bicicleta :-)
Logo à saída de Vila Franca de Xira, virámos para as estradas secundárias da leziria ribatejana que nos acompanhariam até Constância. Até Santarém, a única dificuldade do dia era a subida das Ónias até à antiga Scálabis dos romanos. Aí, após uma visita às Portas do Sol que proporcionou uma vista magnifica sobre o lânguido Tejo a correr por entre as antigas povoações árabes do Ribatejo - Alpiarça, Almeirim, ... - carimbou-se o Brevet no primeiro posto de controlo.
De Santarém até à Golegã foi um saltinho apenas difilcutado pelo aparecimento de um Vento do Norte ("Ventos do Norte... Ventos de alegria... Ventos de bem-estar... ") e de um furo na "bicla" do Zé Almeida. Pensando bem, dadas as estradas que passámos, apenas dois furos em 210 km para quatro "randonneurs" não é nada mau !
Mudada a câmara de ar, seguimos até a Quinta da Cardiga e após respondermos a mais uma pergunta do Brevet ("Quantos candeeiros possui a entrada principal da Quinta da Cardiga?", mais uma originalidade interessante dos BRM...) e anotarmos a hora de passagem, "atacámos" o quilómetro e meio de estrada em terra batida que por acaso também faz parte de um Caminho de Santiago português.
Chegados a Constância aproveitámos para retemperar as forças com uma boa sopa de espinafres, uma "sandes" de carne assada no caso do Zé Almeida e uma Tijelada no meu caso. O Luis Inácio preferiu completar a sopa com um banho de sol que entretanto tinha aparecido para aquecer as almas...
De Constância até Muge - a "nortada" precoce que noutros tempos levou os portugueses por esse Oceano Atlântico abaixo até aos confins de África - carregou-nos a nós pelo Ribatejo abaixo quais caravelas modernas em mares antigos...
As paisagens simples mas fenomenais do Ribatejo profundo se calhar só são bem apreciadas por quem lá viveu nos tempos em que semear batatas, plantar couves, semear melão e apanhar azeitona para depois fazer azeite num lagar tradicional marcavam o correr das estações do ano. Outros tempos, outra pessoas e outro "eu"...
Voltando ao presente e à L'Antique, de Muge até à Azambuja, atravessámos o nosso Cabo das Tormentas: o nosso Adamastor era a "nortada" que até aí tinha sido a nossa melhor companheira. O percurso sinuoso por entre campos abertos fazia "andar ao vento" parecer que estavámos a pedalar dentro de água tal a força do vento...
A nuvem escura que surgiu vinha tão carregada que encheu de medo os navegantes. O mar, ao longe, fazia grande ruído ao bater contra os rochedos. Vasco da Gama, atemorizado, lança voz à tempestade perguntando o que era ela, que ela lhe parecia mais que uma simples tormenta marinha.
Mas o gigante vento Adamastor não foi o único obstáculo por aquelas alturas: as sereias da dúvida também apareceram para um teste à nossa resolução e convicções: porque raio é que um tipo faz 210 km em cima de uma bicicleta contra "ventos e marés", em vez de estar descansado em casa a "pastelar" em frente à televisão ou a fazer qualquer outra coisa mais fácil? Porque o caminho faz-se andando e o homem precisa de desafios...
Enfim, ao fim de cerca de 10 horas e pico - das quais 8 horas e 15 minutos a pedalar - lá regressámos ao ponto de partida em Vila Franca de Xira com o extâse de "missão cumprida" a percorrer as pernas fatigadas!
Próxima viagem no "caminho das descobertas:" "Planicies e Montados 300" no dia 2 de Março !


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