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Crónica do meu "Tróia - Sagres 2012"

14 de Dezembro de 2012: metade de Portugal está sob "alerta vermelho" e a outra metade sob "alerta laranja" ou "amarelo".

"Alerta vermelho", correspondia a uma "situação  meteorológica de risco extremo", nomeadamente "chuva forte e persistente",  "aguaceiros", "rajadas de vento superiores a 130 quilómetros por hora e  "trovoadas frequentes e concentradas", segundo o portal do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. A Autoridade Nacional de Protecção Civil estava a aconselhar a população a adotar uma "condução defensiva", "não atravessar zonas  inundadas" e ter "cuidado na circulação junto da orla costeira e zonas ribeirinhas  historicamente mais vulneráveis a inundações rápidas".

O único distrito de Portugal com "aviso verde" era Faro, não se prevendo "nenhuma situação de  risco meteorológico".

Este iria ser o meu primeiro "Tróia - Sagres" e estava já suficientemente apreensivo com tal experiência e dispensava a parte de ter que fazer 200 quilómetros sob chuva e vento!!!


Era então com este cenário de tempestade em Portugal que nessa noite de sexta-feira parti de casa em direcção a Tróia, mais propriamente para a Albergaria Foz do Sado. Apesar de ter preparado todo o equipamento necessário no dia anterior (quinta-feira), a chuva persistente e dois miúdos pequenos atrasam sempre quaisquer planos pré-estabelecidos: tinha como objectivo chegar à Albergaria por volta das 7 ou 8 da noite, mas acabei por chegar apenas quase às 11 da  noite...


Citando o site da Ciclonatur, o evento "Tróia - Sagres" começou com um desafio pessoal que António Malvar colocou a si próprio: "Quando fiz 40 anos, o que aqui entre nós, não foi assim há tanto tempo, estabeleci para mim próprio um teste anual para contrariar a sensação de velho que minhas filhas já adultas me faziam sentir.

Tinha de ser um teste duro e dificilmente ao meu alcance. Como por essa altura fazia atletismo de fundo e sobretudo ultramaratonas, não fazia muito sentido estabelecer objectivos no desporto para o qual estava bem treinado. Daí pensei na bicicleta que era algo que não praticava com regularidade.

Em cada Natal, com a reunião de toda a família, ficamos particularmente mais sensível ao tema da velhice e nesse mesmo ano de 1990 decidi que a viagem que invariavelmente fazia a Sagres para passar o fim de ano com a família passaria a fazê-la de bicicleta todos os anos até que pudesse. Este era o teste, ir de Tróia a Sagres de bicicleta num só dia e chegar antes de anoitecer.

Ora se por um lado com a minha devoção ao BTT, o que aconteceu logo no ano a seguir, isso tornou o objectivo a alcançar menos duro e fácil de conseguir, por outro lado a mudança da hora de Inverno para um hora mais cedo veio a tornar as coisas mais complicadas.

Nesse 1º ano de 1990 levei 10 horas e 25 minutos a chegar a Sagres depois de muito suor e lágrimas. Em 2003 no entanto gastei apenas 6 horas e 12 minutos.

Vários são os factores que podem contribuir positivamente para tornar a viagem mais: fácil: ir em grupo, o tempo colaborar, não haver vento de frente, a boa alimentação nos dias anteriores, dormir suficientemente nas noites anteriores, comer um farto pequeno almoço no dia, e ter um carro de assistência.

Felizmente todos os anos há uns quantos amigos que respondem afirmativamente ao meu convite para me acompanharem nesta loucura o que torna a viagem mais agradável e o convívio ao jantar nesse dia transforma-se num dos bons momento da minha vida.

A tomada de tempo na chegada a Sagres é feita na placa toponímia de entrada na vila e a concentração depois da chegada é junto ao Posto de Turismo de Sagres.
"


Portanto o "Tróia - Sagres" nasceu da crise da envelhescência do António Malvar: a envelhescência, termo criado por Manoel Berlinck, vai dos quarenta até aos sessenta e poucos anos e corresponde à transição entre a idade adulta e a velhice. É nesta fase da vida que aproveitamos para fazer algumas das coisas que não conseguimos fazer na juventude e na idade adulta. E sobretudo onde colocamos desafios a nós próprios talvez para provarmos que ainda somos relevantes...


Como já aqui escrevi algumas vezes noutros posts, quando cheguei aos 40 anos, a crise da envelhescência levou-me a comprar uma bicicleta de estrada. Comprei a bicicleta para ajudar a melhorar a forma fisica e perder peso, mas a "coisa" transformou-se em algo mais: agora ando de "bicla" para conhecer os meus limites fisicos e psicológicos, para relaxar e organizar os meus pensamentos e também porque me permite sair da minha "bolha". A bicicleta deve ser - a par da corrida - um dos grandes "niveladores" da sociedade: não adianta se és rico ou pobre, com curso superior ou analfabeto, em cima de uma bicicleta somos todos iguais, duas rodas e uma estrada para percorrer.  Neste aspecto, andar de bicicleta, permitiu-me conhecer novas pessoas, e todas diferentes daquilo que sou...

Assim sendo, dois anos depois de ter voltado a andar de bicicleta estabeleci para mim próprio alguns objectivos para o ano de 2012:
  1. Participar em 3 Desafios Audace da FPCUB;
  2. Fazer 6000 kms de bicla no ano;
  3. Fazer o Tróia - Sagres.
O primeiro objectivo foi largamente superado com a participação em cinco Desafios Audace, o último dos quais em 2 de Dezembro: o "I Audace Final de Época 2012".

O segundo objectivo também se encontra em vias de ser atingido (ou já largamente ultrapassado se juntarmos os quilómetros andados na bicla de estrada com os da bicla estacionária...), portanto só faltava fazer o "Tróia - Sagres" para "encerrar" com sucesso os objectivos de 2012.

Quem segue o meu blog já sabe que eu sou bastante "control freak", por isso, a preparação para o meu primeiro "Tróia - Sagres" não fugiu à regra: roupa, equipamento e alimentação preparados com antecedência, hoteis marcados (para além da Albergaria em Tróia, iria ficar na noite de sábado para domingo em Faro no Hostel Casa D'Alagoa) e sobretudo familia convencida a fazer de carro de apoio (e olhem que não é fácil convencer dois miúdos de 11 e 5 anos a estarem um dia dentro de um carro a seguir o pai que vai a andar de bicicleta...).

A única coisa que eu não conseguia controlar era mesmo o tempo, e claro está, no dia anterior ao evento a situação "estava preta" como dizem os nossos irmãos brasileiros. Mas é impressionante como uma pessoa tenta contornar as dificuldades quando realmente quer fazer algo: chovia a potes, mas pensava sempre para mim mesmo "é bom que chova agora que amanhã vai estar bom!", e lá consultava os sites de meteorologia até encontrar um que previsse aquilo que eu desejava: ou seja, um 15 de Dezembro sem chuva...

Outra coisa que não consegui fazer foi mobilizar alguma malta para fazer também o "Tróia - Sagres", mas confesso que não me esforcei muito neste ponto, porque queria fazer como o António Malvar em 1990, ou seja, fazer sozinho e provar a mim próprio que ainda estou aqui para as curvas :-) O único maluco que eu conhecia e que também ia fazer o seu primeiro "Tróia - Sagres" era o Hugo "BMC" Pires, mas este ia com a malta da margem sul das suas voltas habituais, e isso é gente que anda demais para o meu gosto :-)

E chegámos à manhã de 15 de Dezembro: a Albergaria estava - excepcionalmente - a servir o pequeno-almoço a partir das 06:15 e quando cheguei à sala, esta estava já composta com outros ciclomalucos. Acabei por tomar o pequeno-almoço com um dos organizadores dos eventos Randonneurs Portugal e aproveitei para o questionar sobre alguns dos eventos previstos para 2013 (motivo para uma crónica futura).

Quando acabei de tomar o pequeno-almoço já havia malta a passar na estrada em frente à Albergaria vindos de Tróia. A tempestade do dia anterior tinha desaparecido e apesar do céu estar cinzento não chovia.

Pouco antes das 08:00 da manhã parti então da dita Albergaria em direcção a Tróia e quando a confusão já era bastante para o meu gosto, parei e apontei a "burra" para Sul. Antes de partir havia que colocar o Garmin Edge 500 em modo de seguimento do track que tinha sido previamente descarregado do site da Ciclonatur. Qual é a minha surpresa quando descubro que me tinha esquecido de carregar o track !!!! Eu, o "control freak", o tipo que planeia tudo ao pormenor e que nunca se engana e raramente tem dúvidas :-) Prova que até neste aspecto evoluí muito neste dois últimos anos, tomei este facto como mais um sinal que eu estava destinado a imitar o António Malvar em 1990 e fazer o percurso sem GPS (que apesar de já existirem nesse ano não estavam disponiveís para a malta civil...). Mas o António tinha algumas vantagens que eu não tinha: conhecia o caminho e provavelmente tinha estudado o mapa previamente.




Mas já que estava ali não ia desistir e foi até com algum contentamento e entusiasmo que parti em direcção a Sagres: o meu plano era seguir em frente e rezar (eu, que até sou ateu...) para ter sempre alguém em linha de vista quando chegasse a algum cruzamento ou mudança de direcção. Felizmente, dado o elevado número de participantes e o facto de terem partido espaçadamente, iria encontrar sempre malta desde Tróia até Sagres !!! Uma prova da dimensão que o evento atingiu...

Quando se parte sozinho muito dificilamente se consegue apanhar um grupo que ande à velocidade que queremos ou podemos fazer: a malta que ultrapassamos vai demasiado devagar para nós e os que nos ultrapassam vão demasiado depressa !!!

Assim, os primeiros 30 quilómetros foram feitos nesse modo (a ultrapassar ou a ser ultrapassado) mas chegado a este ponto o céu ameaçava rebentar a qualquer altura e resolvi parar para vestir o impermeável. A bom tempo o fiz porque pouco depois começou a chover: a chuva ia acompanhar-me - com maior ou menor intensidade - até cerca do quilómetro 120 !!! Algures pelo meio até tive que ultrapassar uma pequena inundação num vale atravessado por um pequeno ribeiro: mais uma estreia para mim, até então nunca tinha pedalado com água quase ao nível dos pedais (no seu ponto mais baixo) !!!

Entretanto com pouco mais de duas horas de "prova" cheguei ao primeiro ponto de paragem tradicional do "Tróia - Sagres" ao pé da Central Termoeléctrica de Sines: como conheço a mulher e os filhos que tenho já calculava que chegaria a este ponto e eles ainda estariam no "quentinho" da Albergaria. Um rápido telefonema serviu para confirmar as minhas suspeitas: estavam nessa altura a fazer o check-out ! Mas eu tinha vindo preparado e estava abastecido de gel e barras - segundo os meus cálculos - até ao segundo ponto de paragem  no Rogil. E se esgotasse o stock ou precisasse de abastecer podia sempre parar num café algures no caminho...

Mas com a chegada da primeira dificuldade cerca do quilómetro 115 comecei a sentir falta do carro de apoio pois tinha esgotado os meus bidons de bebida energética e cafés nem vê-los... Assim foi com bastante agrado que algures no quilómetro 125 foi finalmente "apanhado" pelo meu  carro de apoio. Como tinha parado de chover (algures pelo quilómetro 120) aproveitei para despir o impermeável e já reabastecido de geis, barras e bebida lá segui caminho novamente.


Pela frente tinha a parte mais dificil do percurso, pois apesar do Alentejo ser maioritariamente plano, existem também algumas subidas que servem para testar as pernas e a alma: do quilómetro 115 ao quilómetro 200 em Sagres, o percurso é basicamente constituído por subidas e descidas mais ou menos pronunciadas.


Para ser fiel ao espirito do evento - e também porque as pernas estavam a precisar de um descanso - resolvi parar no Rogil. Mais uma vez não havia sinal do carro de apoio: tinham parado algures num supermercado para comprarem bolhachas, sumos e água !!! Para os miúdos e não para mim !!! Para o ano tenho que contratar uma equipa de apoio profissional :-)

Enfim o caminho faz-se andando e cheguei a Aljezur com mais um record pessoal atingido: nunca tinha feito mais de 167 quilómetros em cima de uma bicicleta nem mesmo quando havia bifanas envolvidas ("O dia em que fiz 167 kms de bicicleta").

A seguir a Aljezur tivemos a última dificuldade do percurso com uma subida com cerca de 8 quilómetros de extensão, e no final da mesma fui apanhado pelo Ricardo da Movefree Benfica (antiga Outside Benfica) que vinha à "mama" de um companheiro com aspecto de ter o dobro da idade dele: uma vergonha para um jovem na casa dos 30 anos :-) Como ainda me restava algum gás, imitei o Ricardo e colei-me a eles, usando aquela técnica ancestral do "puxa - empurra": o companheiro da frente puxava por nós e eu empurrava lá na traseira do grupo :-)

Como ambos estávamos os três montados em bicicletas Scott - uma CR1, uma Foil e uma Addict - parecia que estávamos a fazer um anúncio qualquer para aquela marca !

Com o avistar do fim de Portugal lá ao longe - finalmente! - e com o "aplanar" do terreno lá encontrei forças para também puxar na frente e foi assim que rapidamente chegámos a Sagres e cortámos uma das duas "metas" disponiveis: havia uma da KTM e outra da Red Bull.


Para "desanuviar" as pernas e fazer os 200 quilómetros no GPS ainda dei umas pequenas voltas pela localidade, após o que finalmente reencontrei a minha mulher e filhos para o regresso a Lisboa com paragem para pernoitar em Faro.



No final fiz os  cerca de 200 quilómetros com a média de 24,8 kms/h, o que não sendo nada brilhante, não foi mau considerando as condições atmosféricas e sobretudo o facto de ter feito o percurso quase sempre sozinho.


Este primeiro "Tróia - Sagres" representou para mim o atingir dos objectivos que tinha estabelecido para mim próprio no inicio do ano e sobretudo permitiu-me ultrapassar mais alguns limites fisicos e psicológicos que pensava que tinha até essa altura. Foi para mim uma daquelas experiências que nunca mais esquecemos e que todos deveriam fazer uma vez na vida. E sinceramente gostei de fazer o percurso praticamente sozinho porque isso tornou o facto de chegar ao fim ainda mais saboroso e recompensador !

Fica a promessa de voltar em 2013, eventualmente com um grupo de malta e desfrutar de outra forma do evento !!!

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