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Os primórdios do ciclismo em Portugal

Continuando a minha busca de sapiência sobre o inicio do ciclismo em Portugal, descobri este artigo de António Simões publicado no jornal "A Bola", entitulado "A mais de 70 km/hora num... «carro do Diabo»!" do qual transcrevo a parte respeitante à história do começo do ciclismo em Portugal.



"Foi uma tosca máquina de madeira de duas rodas, semelhante à funâmbula que se usava no Circo Price da Calçada do Salitre o primeiro vestígio de ciclismo em Portugal. Fê-la Artur Seabra, um dos fundadores do Ginásio Clube Português (GCP) – algures pela segunda metade do século XIX. Depois, ao saber que por França se construíra velocípede de aço, Seabra, que para além de ginasta era conhecido pelas suas engenhocas, usou um cano de espingarda para construir outro «byciclo» – e com ele se exercitava na cerca do Hospital de Rilhafoles, palácio que se transformara em hospício de doidos, quem passava, contava-se, achava que era um louco também em estranhas acrobacias. 

A última vez que esse «byciclo» de Artur Seabra andou foi numa excursão a Sintra para que desafiou João Possolo. Possolo também era aluno de Luís Monteiro no Real Ginásio Clube Português – e em 1893 ganhou medalha de ouro num torneio internacional em Badajoz, foi o primeiro triunfo no estrangeiro de um desportista nacional. Quatro anos passados, tornou-se o primeiro ginasta amador no mundo a dar em triplos salto mortal da primeira para a terceira barra e em 1901, quando no GCP já havia ginástica «salutar e pedagógica para mulheres» e se fazia, «gratuita e generosamente ginástica educativa e correctiva nos asilos pobres da Assistência Social», ele, Walter Awata e Levy Jenochio deslumbravam plateias com espectáculo de «voos castiços de olhos vendados e séries sem pousar», rezavam crónicas desse tempo.

E a aventura em que Artur Seabra pôs João Possolo contou-a assim Gil Moreira em A História do Ciclismo Português: «Quando chegaram ao alto da Avenida deu-se o primeiro percalço. O aparelho já estava velhote e, além disso, funcionava em condições precárias. Formado de arranjos e peças adaptadas partiu-se-lhe um pedal. Possolo era, porém, brioso e dotado de uma tenacidade pouco vulgar. Tinha-se combinado o passeio e este havia de fazer-se. Pedal a mais, pedal a menos, que importava? Prosseguiu a marcha pedalando só com um pé! Já próximo de Sintra, numa das ladeiras, ocorreu outro incidente e esse podia ter provocado consequências graves. Felizmente, assumiu apenas, apesar de algumas contusões e arranhaduras para Possolo, um aspecto picaresco. 


Precisamente numa rampa, quando a descia vertiginosamente, fugiu o outro pedal! Possolo fez prodígios de equilíbrio, mas surgiu uma cova inoportuna e traiçoeira. A máquina fez um pino e foi arremessado a grande distância. Os calções que vestia ficaram esfarrapados, «alguma coisa indiscretos» - empregando a metáfora do narrador – e o pouco afortunado ciclista entrou em Sintra, na casa de Frederico Macieira, com um casaco a servir de saiote!»

«A besta puxava sentada...»
De repente, começaram a chegar bicicletas do estrangeiro – para os endinheirados. Contestação ou remoque encontraram contudo nas primeiras vezes em que se atreveram à estrada. Por exemplo, Guerra Junqueiro escreveu que «a bicicleta era o único veículo em que a besta puxava sentada» - e em 1896 a polícia de Lisboa entrava na roda da chacota quando via transeuntes a insultar quem se atrevia a pedalar pelas ruas. O Diário de Notícias lançou petição contra as bicicletas, achando que se «tornava caca vez mais perigoso o trânsito na cidade devido à velocidade dos pedalantes» - e um industrial têxtil do Linhó, nos arredores de Sintra, foi selvaticamente agredido por ter cruzado a localidade de byciclo durante uma festa religiosa, porque os fiéis julgaram que... «ia montado num carro do Diabo». Contudo, cinco anos depois, em 1903, o Patriarcado decidiu comprar bicicletas aos padres que as quisessem para melhor se deslocarem nas suas missões!

Bicicleta por 170 dias de trabalho
Bem antes disso, a primeira competição de ciclismo em Portugal, a 17 de Maio de 1885. No hipódromo de Belém, organizada pelo Real Club Ginásio Português – «a favor das Escolas Móveis pelo método João de Deus», poucos meses antes o Paris-Ruão tornara-se a primeira prova oficial de estrada no Mundo. Três especialidades houve e os vencedores foram Domingos Bastos, Jorge Norton e Carlos Bernes. Alguns meses depois surgiram por Portugal as primeiras com «borrachas maciças», pesavam 16 quilos – e foi com elas que em 1886 Herbert Dagge, Raimundo Geovery e Domingos Bastos fizeram Lisboa-Porto, descontadas as paragens, em 32 horas e 25 minutos, à média de 11 km/h. As corridas nunca mais pararam, espalharam-se por Portugal inteiro – e começaram a ter dinheiro até. Em 1888, na prova Benfica-Belas-Benfica o vencedor, Gastão de Almeida, ganhou 200 mil réis de prémio. Uma bicicleta custava então 150 mil réis, o que representava 170 dias de trabalho de um operário especializado.
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