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Tomar - Vales de Cardigos

A empresa onde estou a trabalhar está a desenvolver um projecto na área dos transportes para a região do Médio Tejo (http://www.mediotejodigital.pt/pt/Home.htm).

Sendo um projecto de transportes e sendo eu "ciclomaluco" surgiu a ideia de fazer uma aposta entre mim e a equipa de trabalho: eles desenharam um percurso de bicicleta entre os locais mais relevantes para o dito projecto - e após olhar para a quilometragem e para o acumulado de subida - acordámos em que eu teria que fazer o dito percurso de bicicleta em menos de quatro horas e dez minutos.

O percurso (http://www.gpsies.com/map.do?fileId=lnmbxwdzdslhlgzh) começava em Tomar, passava por Abrantes, Mação, Cardigos e terminava nos Vales de Cardigos.


O primeiro passo da preparação para esta prova passou por analisar o track do GPSies e comparar as principais subidas com algumas que já tinha feito no passado:

Nome Distância Total (Metros) Subida Acumulada (Metros) Gradiente Medio
Montejunto 1ª Parte 8360 437 5,23%
Montejunto 2ª Parte 2270 154 6,78%
Montejunto Total 11150 556 4,99%




Cadafais 15400 280 1,82%
Cabeço da Rosa 4670 118 2,53%




Tomar::Cardigos Subida # 1 11200 206 1,84%
Tomar::Cardigos Subida # 2 2700 97 3,59%
Tomar::Cardigos Subida # 3 5600 136 2,43%
Tomar::Cardigos Subida # 4 5100 154 3,02%
Tomar::Cardigos Subida # 5 5600 140 2,50%
Tomar::Cardigos Subida # 6 11200 162 1,45%
Tomar::Cardigos Subida # 7 1500 88 5,87%
Tomar::Cardigos Subida # 8 3900 133 3,41%

Assim de repente as subidas não pareciam assustadoras, talvez com excepção da Subida # 7 que tinha um gradiente médio de 5,87%. O problema era que o acumulado nos cerca de 92,5 quilómetros do percurso totalizava cerca de 1650 metros, o que não é um número de menosprezar.

Assim sendo, no sábado 28 de Julho de 2012, dei por mim em frente da sede da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, em Tomar, às sete e meia da manhã.

Já não andava de bicla de estrada à cerca de um mês, pois tinha estado de férias no Porto Santo e lá só tenho uma "burra" bem velha e pesada para dar voltas (http://ciclomaluco.blogspot.pt/2012/07/burra-do-porto-santo.html e http://ciclomaluco.blogspot.pt/2012/07/minha-burra-e-um-alfa-romeo.html).

Mesmo com uma bicla velha e pesada, consegui fazer em 20 dias de Porto Santo cerca de 615 quilómetros com onze quilómetros de acumulado... Apesar de toda esta preparação prévia, não estava muito confiante em conseguir superar o desafio de fazer o percurso abaixo das 4 horas e 10 minutos...


Preparação efectuada (bicla, GPS com percurso a efectuar, bidons com bebida energética, geis, barras, capacete, bandana, luvas, sapatos, ...), às oito da manhã em ponto lá parti eu em modo solitário com destino a essa terra chamada Vales de Cardigos.

Convém dizer que do percurso a fazer desconhecia para aí 99%: apenas conhecia o local de partida, um pouco de Abrantes e um pouco de Mação: o resto era um completo "buraco negro". Ao contrário de outras ocasiões, não tive oportunidade de efectuar um reconhecimento prévio, e por isso ia ter que confiar no meu Garmin Edge 500 e nas minhas pernas. Para um "control freak" como eu ia ser quase uma estreia, mas uma coisa boa desta "história das bicicletas" é que somos obrigados a superar os nossos limites fisicos e psicológicos...

O percurso começava com cerca de cinco quilómetros relativamente planos que deram para aquecer as pernas e depois começou uma "subida" gradual até Abrantes. Voltando aos tracks GPS, o problema é que estes são bons mas, a não ser que se analisem com detalhe de metros (e não ao nível dos quilómetros), não dá para perceber completamente as dificuldades do percurso. Exemplo: Subida # 1. Teoricamente seria algo relativamente simples: onze quilómetros com 1,84% de gradiente médio. Só que os gradientes médios são isso mesmo - médios - e na realidade a subida não era uma única e uniforme subida, mas sim um conjunto de subidas com gradientes suficientes para "quebrar as pernas" seguidos de descidas mais ou menos inclinadas. Resultado: cheguei a Abrantes acima da média para cumprir o objectivo mas com pouca convicção que o iria cumprir.

As coisas melhoraram depois de Abrantes: após uma paragem para reabastecimento de água numa fonte localizada depois das Mouriscas (e que me tinha sido recomendada pelo pai de um dos meus colegas), as subidas passaram a ser mais ao meu gosto, ou seja subidas longas mas com gradientes constantes, assim ao jeito do Tour de France :-)

O problema é que como não conhecia o percurso, eu vinha a dosear o esforço, ou melhor, vinha a tentar não estoirar antes de chegar ao fim. Resultado: a média vinha a baixar e a aproximar-se perigosamente do limite para ganhar a aposta. 

Adicionalmente, para quem conhece a função de "course" do Garmin, sabe que o percurso apenas é assinalado por um triângulo preto e um traço correspondente ao caminho a seguir. Mas o raio do Garmin às vezes desliga o dito caminho ficando apenas com um triângulo preto a apontar para a direcção onde estamos a pedalar: normalmente isto acontece numa estrada sem curvas, cruzamentos ou entroncamentos, o que até faz sentido... Mas aconteceu-me num entroncamento à saida de Mação: cruzamento em "T", à boa maneira portuguesa não havia placas e o Garmin resolveu deixar-me adivinhar o percurso a seguir. Claro que consegui escolher a direcção errada, mas pelo menos o Garmin quando saímos do percurso começa a apitar e a "flashar" a mensagem "off course". Lá voltei para trás, mas foram mais umas centenas de metros efectuados a mais e que contribuiram para me aproximar cada vez mais do limite para ganhar a aposta...

Por esta altura já rodava em piloto automático, ou seja, pernas com vida autónoma, cérebro desligado e toda a energia concentrada na próxima pedalada. Foi neste modo - que para mim é o "nirvana" do ciclismo - que comecei a subir para Cardigos. No fim desta subida apanhei mais uma armadilha dos "routeamentos GPS": o caminho traçado automaticamente no Google fazia-me seguir por uma parede quase vertical e com um piso bom para BTT e não para bicicletas de estrada. A única célula cerebral que estava alocada ao raciocinio recusou que eu fosse por esse caminho e a consequência foram  umas centenas de metros a mais, e mais  um episódio "Lost in Cardigos". Desta vez demorei um bocado a recuperar o track GPS, porque uma coisa é fazê-lo numa estrada no meio de nada, outra é fazê-lo  no meio de um vilarejo com ruas que mal davam para um carro passar. Ainda tentei uma chamada telefónica para o "arquitecto" do percurso, mas a cobertura GSM na zona é péssima e fiquei mais uma vez entregue aos meus recursos.

Enfim, lá consegui recuperar o percurso e fui presenteado com algumas das subidas mais ingremes do percurso: com cerca de 80 quilómetros em cima das pernas e mais de 1300 metros de acumulado estava a ver a minha vida a andar para trás! Mas mais uma vez e sempre à custa da força de vontade lá prossegui sem desmontar da bicla e consegui subir algumas das maiores "paredes" que já tive o prazer de "ciclar".

E foi neste sobe e desce de paredes que cheguei ao Carrascal onde finalmente os meus colegas conseguiram falar comigo via telémovel para saber do meu paradeiro. Combinámos que iriam esperar por mim na placa que marca o começo de Vales de Cardigos, mas os preguiçosos conseguiram chegar lá  depois de eu ter passado e metido pela povoação adentro rumo ao Café Central ! As ruas eram tão estreitas que tive que parar antes de chegar ao dito café porque havia uma Toyota Hiace a bloquear uma rua: mais uma armadilha dos meus colegas para ver se eu não chegava dentro do tempo limite :-)

Mas lá consegui chegar ao fim em cerca de quatro horas e cinco minutos, ou seja, objectivo cumprido !

Após um banho retemperador, terminámos o desafio no Restaurante Solar do Minho em Cardigos, onde consegui comer um petisco tradicional daquela zona de Portugal: Maranhos!





Só fiquei com pena de não terem Bucho :-)

 

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