Estou de novo no voo TP82 da TAP de São Paulo de regresso a
Lisboa. Desta vez não tenho ao meu lado um francês meio bêbado, mas sim um tipo
(aparentemente) mais refinado, provavelmente suíço (pelo menos o seu telemóvel
é da Swisscom…). Apesar desse “refinamento” também já vai no segundo copo de
vinho tinto…
Acabei de lei dois artigos muito bons na Time sob a captura
do Osama Bin Laden: “The Last Days of Osama Bin Laden” de Peter Bergen – que
descreve a operação militar – e “How it Went Down” de Graham Allison – que
descreve o processo de decisão que levou à operação militar. Este último artigo
é particularmente interessante porque é uma janela sobre a forma como o
Presidente Obama conduziu o processo e conseguiu que a operação se mantivesse
em segredo por cerca de 5 meses. Para terem uma ideia da dificuldade da coisa,
no fim da operação, quando os helicópteros estavam novamente em espaço aéreo do
Afeganistão de regresso do Paquistão, o congresso americano foi alertado para o
que tinha acontecido: cinco (5 !!!) minutos depois disto a CNN já dava a
notícia da morte do Bin Laden, cerca de uma hora antes da noticia “oficial”.
O artigo é também muito bom porque descreve um processo de
decisão que aos olhos dum “típico europeu do sul” (eu não, eu sou moçambicano
:-) ) é bastante estranho: ponderação de todas as opções, criação de cenários,
avaliação de riscos e consequências e
“scripting” antecipado para cada um dos resultados possíveis. Em resumo, tudo
aquilo que também deveria ser aplicado no dia à dia profissional de muita
gente, começando pelos políticos portugueses.
Mas não se assustem: esta crónica não vai ser sobre o Obama
e o Osama :-) Vou escrever sobre a “H3”, “O Melhor Chocolate do Mundo” e “A
Vida é Bela”.
Estranhamente, enquanto escrevia o parágrafo acima, o meu
iPod resolveu premiar-me com uma música dos “Foge Foge Bandido” intitulada “Não
fui eu que estraguei”, cujo refrão começa com:
“Mãe, eu já não sou quem era,
Agora tenho a minha guerra,
A minha luta privada,
Ainda ouço a canção da Lua”
…e depois descamba em:
“Mãe, a vida é esta merda,
Vê lá só o cheiro que se herda,
Trocamos os sonhos por qualquer porcaria,
Cantando de novo de canção da Lua,
Enquanto não chega o dia...”
Brilhante e apropriado, dado o cheiro que chega das casas de
banho do avião uma meia dúzia de filas á frente donde estou sentado :-)
Voltando à crónica: nesta viagem a São Paulo tive
oportunidade de visitar mais um lugar que frequentava quando estive no Brasil
no final dos anos noventa: o “Shopping Morumbi”. É estranho voltar a um sitio
doze anos depois e ver que muitas coisas não mudaram (pelo menos
aparentemente): o Rufino’s continua lá a servir peixe e marisco, o Galeto’s
continua de vento em popa a servir frangos pequenos (“galetos”) feitos da forma
como o fundador tuga os começou a fazer à 40 anos, o restaurante indiano onde
eu e o Rui Cardoso aprendemos o que é comida verdadeiramente picante ainda
sobrevive (juntamente com o rinoceronte e o elefante de madeira na escala 1:2), e
a loja de roupa onde tive de comprar fatos novos quando engordei à custa de
tanta boa comida também ainda lá está.
O que mudou no “Shopping Morumbi” (e pelo que eu percebi em
todo o São Paulo e no resto do Brasil) foi o preço das coisas: à doze anos o
custo de vida no Brasil era baixo para um expatriado tuga, agora é ao contrário,
as coisas estão mais caras – muito mais caras – que em Portugal, Espanha e
mesmo alguns países do centro da Europa. A vida dá muitas voltas…
Outra coisa que é novo no “Shopping Morumbi” são algumas
lojas como a Fnac (muito igual àquilo que temos em Lisboa), lojas de artigos de
luxo (jóias sobretudo), Starbuck’s e
para orgulho dos portugueses, três marcas nossas: a “H3”, a “O Melhor Bolo de
Chocolate do Mundo” e “ A Vida é Bela”.
Começando pelo principio, ou seja pela “A Vida é Bela”: os
packs desta empresas estão bem visíveis logo na entrada da Fnac e segundo o
Cláudio Nagao – um amigo brasileiro, descendente em terceira geração de
imigrantes japoneses que perdeu o gosto de comer peixe e que nem sequer sabe o
nome de um bom restaurante japonês no Bairro da Liberdade de São Paulo ! –
foram os pioneiros no Brasil desse tipo de produto (tal como em Portugal).
Continuando para o prato principal, o “H3” é em tudo
semelhante ao português, incluindo o “H3 Tuga”. Orgulho !!! Quase que me vinham
as lágrimas ao olhos :-) Sim, eu sou um gajo sensível apesar deste aspecto rude
e “couraçado” :-)
Finalmente “O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo”: segundo o
Cláudio, os bolos são “demasiado doces” !!!! Cara, aquilo é merengue de chocolate
com chocolate, não podia ser outra coisa que não seja doce :-) A verdade é que
a opinião do Cláudio deve ser também a opinião de muitos brasileiros (ou pelo
menos paulistanos…) porque o quiosque do “O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo”
apresentava para além do nosso conhecido bolo de chocolate de Lisboa, versões
“Meio Doce” e uma versão tropicalizada que não era só baseada em chocolate. “Grandes
Boiolas” !!! Então um dos povos que produz mais cacau no mundo não é capaz de
comer o Verdadeiro e Incomparável “Melhor Bolo de Chocolate do Mundo” porque é
demasiado doce ?!?!?!? Ao que o mundo chegou :-)
Bem, vou ver se consigo dormir algo. Ahh, mas como este é
supostamente um blog sobre ciclismo, aqui vai uma frase sobre o assunto: esta
viagem de regresso a Lisboa marca também o inicio do meu estágio para o “Audace
Porto – Lisboa” de 2 e 3 de Junho. Portanto acabaram-se as caipirinhas,
chopinhos, H3 e bolos de chocolate: daqui em diante é só água e saladinhas !
Alguém quer vir fazer 350 kms em bicicleta de estrada
divididos por dois dias? Podemos sempre comemorar esse feito de superação
pessoal com umas massagens nas pernas compradas na “A Vida é Bela”, seguido de
um bom hamburger com ovo a cavalo no H3, e um bolo (versão portuguesa claro
está) do “O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo” :-)

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