A minha história com as bicicletas
Já não me lembro bem com que idade aprendi a andar de bicicleta. Sei que foi algures por volta dos 7 ou 8 anos e que foi na terra dos meus pais - Ponte Nova, Casével, Santarém. Também não me lembro de quem era a bicicleta que usei pois os meus pais não tinham dinheiro para me comprar uma. Sei que aprendi a andar e pronto: lembro-me de andar na estrada de terra batida ao pé da casa dos meus avós para trás e para a frente contente da vida.
Só voltei a andar de bicicleta anos mais tarde, por volta dos 15 anos e quando já morava em Santarém, quando um tio meu me "transmitiu" uma "pasteleira" Peugeot velhissima que ele tinha e que já não usava. Digo "transmitiu" porque essa bicicleta é como os Rolex: vai passando de geração em geração e não é de ninguém, apenas temos o privilégio de a usar durante uns tempos.
A Peugeot era fantástica, tinha uma cassete com 5 mudanças onde apenas 3 funcionavam: nas outras faltavam dentes e não se conseguiam utilizar. O manípulo das mudanças estava colocado no tubo inferior e era daqueles antigos que consoante a rotação desviava a corrente e mudava a mudança - nada de "rapid fire" e coisas desse género. O banco era o banco tipico das pasteleiras - grande e com molas amortecedoras, um autêntico luxo ! Á frente só tinha um carreto, mas também quem precisava de mais?
Passei algumas férias grandes - aquele hiato entre Junho e Outubro em que não havia aulas e ao contrário do que acontece actualmente não existiam campos de férias ou a possibilidade de deixar os miúdos na escola mesmo não havendo aulas - a jogar à bola e a andar de bicicleta. Na altura, o local onde morava - São Domingos - só tinha 3 bairros: um da Policia, outro da Câmara Municipal e aquele onde eu morava do Fundo de Fomento à Habitação e que tinha sido construído para os retornados de Africa como os meus pais (e eu). Assim no meio do triângulo formado por esses bairros não havia nada - ou antes - havia um descampado que nós transformámos em campo da bola e onde passávamos as tardes e principio da noite a jogar futebol.
Como também não havia trabalhos de casa e livros de exercicios para as férias, ainda sobrava tempo - e muito - para andar de bicicleta. Foi assim que eu e a minha pasteleira Peugeot passávamos o verão: às voltas por São Domingos e ao redor de Santarém, ou então no descampado numa pista improvisada de ciclocross: já experimentaram fazer BMX com uma pasteleira? Dava um gozo do caneco além de proporcionar quedas brutais !!!!
Com a ida para a Universidade, voltei a deixar as bicicletas de parte. Acabado o curso superior, fiz o que toda a gente faz, ou seja, investi a boa parte dos meus vinte anos na carreira e na vida profissional. Olhando para trás só posso ter pena por não ter aproveitado o inicio da onda do BTT em Portugal: estávamos nos anos 90 e o BTT começava a ter expressão em Portugal, inclusive tinha uns quantos colegas da empresa que participavam dos primeiros passeios de BTT que se organizaram. Eu contudo achava o BTT pouco apelativo, provavelmente porque os anos de "pasteleira" me tinham "formatado" para o alcatrão.
Mesmo assim, em 2000, depois de cerca de 18 meses no Brasil, passados com outro ciclomaluco - o Rui Cardoso - e no regresso a Portugal lá comprei a minha primeira bicicleta: uma Giant ATX 850 !!! Uma grande bicla de BTT para a altura com transmissão Shimano Deore e travões de disco !!!
Mas mais uma vez, enquanto o Rui começou a investir mais a sério no BTT, eu investi na familia e passado um ano nasceu o meu primeiro filho. Mas ao contrário da década anterior, nunca deixei de andar de bicicleta sempre que podia, embora não tantas vezes como gostaria.
O tempo foi passando e cheguei à crise dos 40 anos: os miúdos - um com 5 e o mais velho com 10 - já estão autónomos o suficiente e não havendo dinheiro nem pachorra para o Porsche, optei por uma opção mais saudável: voltar aos bons velhos tempos das bicicletas de estrada. Como "control freak" que sou, a busca pela "burra" perfeita começou por uma pesquisa na internet para me informar do que devia buscar numa bicicleta. Adicionalmente, por esta altura também já tinha alguns amigos que andavam de bicicleta de estrada e que me ajudaram na compra, especialmente o Hugo Pires que teve paciência para andar comigo a ver bicicletas e a explicar a um recém-chegado os prós e contras, as vantagens e desvantagens de certo tipo de quadros e componentes. E foi a conselho do Hugo que acabei por comprar em 2011 uma Scott CR1 Team de 2010 que estava em promoção na Outside Bike Store da margem sul.
Confesso que quando comprei a bicicleta não imaginei que iria ficar tão apanhado como estou agora. Comprei a bicicleta para ajudar a melhorar a forma fisica e perder peso, mas a "coisa" transformou-se em algo mais: agora ando de "bicla" para conhecer os meus limites fisicos e psicológicos, para relaxar e organizar os meus pensamentos e também porque me permite sair da minha "bolha". A bicicleta deve ser - a par da corrida - um dos grandes "niveladores" da sociedade: não adianta se és rico ou pobre, com curso superior ou analfabeto, em cima de uma bicicleta somos todos iguais, duas rodas e uma estrada para percorrer. Neste aspecto, andar de bicicleta, permitiu-me conhecer novas pessoas, e todas diferentes daquilo que sou.
Enfim, tudo isto pode fazer parte da "crise dos 40" ou da Envelhescência (como descreve o José Bancaleiro em http://www.bancaleiro.com/blog/entry.html?ref=104&blog=blog), mas o que quer que seja é bom e faz-me sentir bem !!!
Já não me lembro bem com que idade aprendi a andar de bicicleta. Sei que foi algures por volta dos 7 ou 8 anos e que foi na terra dos meus pais - Ponte Nova, Casével, Santarém. Também não me lembro de quem era a bicicleta que usei pois os meus pais não tinham dinheiro para me comprar uma. Sei que aprendi a andar e pronto: lembro-me de andar na estrada de terra batida ao pé da casa dos meus avós para trás e para a frente contente da vida.
Só voltei a andar de bicicleta anos mais tarde, por volta dos 15 anos e quando já morava em Santarém, quando um tio meu me "transmitiu" uma "pasteleira" Peugeot velhissima que ele tinha e que já não usava. Digo "transmitiu" porque essa bicicleta é como os Rolex: vai passando de geração em geração e não é de ninguém, apenas temos o privilégio de a usar durante uns tempos.
A Peugeot era fantástica, tinha uma cassete com 5 mudanças onde apenas 3 funcionavam: nas outras faltavam dentes e não se conseguiam utilizar. O manípulo das mudanças estava colocado no tubo inferior e era daqueles antigos que consoante a rotação desviava a corrente e mudava a mudança - nada de "rapid fire" e coisas desse género. O banco era o banco tipico das pasteleiras - grande e com molas amortecedoras, um autêntico luxo ! Á frente só tinha um carreto, mas também quem precisava de mais?
Passei algumas férias grandes - aquele hiato entre Junho e Outubro em que não havia aulas e ao contrário do que acontece actualmente não existiam campos de férias ou a possibilidade de deixar os miúdos na escola mesmo não havendo aulas - a jogar à bola e a andar de bicicleta. Na altura, o local onde morava - São Domingos - só tinha 3 bairros: um da Policia, outro da Câmara Municipal e aquele onde eu morava do Fundo de Fomento à Habitação e que tinha sido construído para os retornados de Africa como os meus pais (e eu). Assim no meio do triângulo formado por esses bairros não havia nada - ou antes - havia um descampado que nós transformámos em campo da bola e onde passávamos as tardes e principio da noite a jogar futebol.
Como também não havia trabalhos de casa e livros de exercicios para as férias, ainda sobrava tempo - e muito - para andar de bicicleta. Foi assim que eu e a minha pasteleira Peugeot passávamos o verão: às voltas por São Domingos e ao redor de Santarém, ou então no descampado numa pista improvisada de ciclocross: já experimentaram fazer BMX com uma pasteleira? Dava um gozo do caneco além de proporcionar quedas brutais !!!!
Com a ida para a Universidade, voltei a deixar as bicicletas de parte. Acabado o curso superior, fiz o que toda a gente faz, ou seja, investi a boa parte dos meus vinte anos na carreira e na vida profissional. Olhando para trás só posso ter pena por não ter aproveitado o inicio da onda do BTT em Portugal: estávamos nos anos 90 e o BTT começava a ter expressão em Portugal, inclusive tinha uns quantos colegas da empresa que participavam dos primeiros passeios de BTT que se organizaram. Eu contudo achava o BTT pouco apelativo, provavelmente porque os anos de "pasteleira" me tinham "formatado" para o alcatrão.
Mesmo assim, em 2000, depois de cerca de 18 meses no Brasil, passados com outro ciclomaluco - o Rui Cardoso - e no regresso a Portugal lá comprei a minha primeira bicicleta: uma Giant ATX 850 !!! Uma grande bicla de BTT para a altura com transmissão Shimano Deore e travões de disco !!!
Mas mais uma vez, enquanto o Rui começou a investir mais a sério no BTT, eu investi na familia e passado um ano nasceu o meu primeiro filho. Mas ao contrário da década anterior, nunca deixei de andar de bicicleta sempre que podia, embora não tantas vezes como gostaria.
O tempo foi passando e cheguei à crise dos 40 anos: os miúdos - um com 5 e o mais velho com 10 - já estão autónomos o suficiente e não havendo dinheiro nem pachorra para o Porsche, optei por uma opção mais saudável: voltar aos bons velhos tempos das bicicletas de estrada. Como "control freak" que sou, a busca pela "burra" perfeita começou por uma pesquisa na internet para me informar do que devia buscar numa bicicleta. Adicionalmente, por esta altura também já tinha alguns amigos que andavam de bicicleta de estrada e que me ajudaram na compra, especialmente o Hugo Pires que teve paciência para andar comigo a ver bicicletas e a explicar a um recém-chegado os prós e contras, as vantagens e desvantagens de certo tipo de quadros e componentes. E foi a conselho do Hugo que acabei por comprar em 2011 uma Scott CR1 Team de 2010 que estava em promoção na Outside Bike Store da margem sul.
Confesso que quando comprei a bicicleta não imaginei que iria ficar tão apanhado como estou agora. Comprei a bicicleta para ajudar a melhorar a forma fisica e perder peso, mas a "coisa" transformou-se em algo mais: agora ando de "bicla" para conhecer os meus limites fisicos e psicológicos, para relaxar e organizar os meus pensamentos e também porque me permite sair da minha "bolha". A bicicleta deve ser - a par da corrida - um dos grandes "niveladores" da sociedade: não adianta se és rico ou pobre, com curso superior ou analfabeto, em cima de uma bicicleta somos todos iguais, duas rodas e uma estrada para percorrer. Neste aspecto, andar de bicicleta, permitiu-me conhecer novas pessoas, e todas diferentes daquilo que sou.
Enfim, tudo isto pode fazer parte da "crise dos 40" ou da Envelhescência (como descreve o José Bancaleiro em http://www.bancaleiro.com/blog/entry.html?ref=104&blog=blog), mas o que quer que seja é bom e faz-me sentir bem !!!

Não posso deixar de te fazer esta pergunta... Porque eu quando era miudo também tinha a bicla em que toda a gente aprendia a andar e que ainda hoje está num armazém na casa do Algarve. Agora onde está a tua Peugeot? A quem passaste o testemunho? :-)
ResponderEliminarA Peugeot foi devolovida ao meu tio e agora deve estar com um primo meu, algures perdida numa cave qualquer. Fiz a mesma pergunta depois de escrever a crónica e estou à espera de encontrar o meu primo para ver se ele sabe do paradeiro da bicla...
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