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A minha Crónica sobre o Audace "Alpiarça - Alcochete - Alpiarça" de 2012




A minha preparação para este Audace começou à 15 dias atrás: como nunca tinha feito mais de 130 kms consecutivos em cima de uma bicicleta, resolvi fazer o reconhecimento do percurso, ou seja fazer o percurso para ver como era o dito e como reagia eu ao mesmo.

A "lebre queniana" que estava apalavrada para ir comigo resolveu cortar-se porque nessa semana comprou uma BMC TeamMachine SLR qualquer coisa e não queria ir estrear a bicla numa volta assim tão grande.

Mas sendo o "control freak" que sou, não podia deixar de fazer o reconhecimento e então lá fiz o percurso sozinho. E ainda bem que o fiz pois serviu-me para várias coisas. Primeiro, percebi que tinha que mudar a alimentação que estava a fazer - e que era baseada em barras: ao fim da quarta barra já não podia ver aquilo à minha frente e não conseguia comer. Resultado: estoirei lá para o km 110 (logo a seguir a Coruche) e fiz os ultimos 40 kms apenas pela força da vontade. Bem, força de vontade e também porque pelo meio parei num minimercado algures no meio de nada e comi uma banana, um Bolycao, uma Cola e um pacotinho pequeno daquelas bolachas de chocolate com um buraco no meio :-) E tudo isto apenas pela módica quantia de € 2,20 !!!! Em Lisboa, as mesmas coisas ficariam quase pelos 10 €...

Segundo: percebi que realmente com força de vontade tudo se consegue. Fui o caminho todo a pensar naquela frase do Armstrong "Pain is temporary. Quiting lasts forever". Assim os ultimos 40 kms do reconhecimento foram feitos em modo automático, pedalando e ignorando os sinais do corpo: dores nas pernas e exaustão... Resultado final: 6 horas e 13 minutos para fazer os 153,6 kms do percurso - mais 1 km do que devia ser porque me enganei no final de tão cansado que estava...

Para resolver o primeiro problema, segui os conselhos do Rui Cardoso e resolvi experimentar as maravilhas do gel energético (atenção que eu apesar dos cabelos brancos sou caloiro nestas coisas das bicicletas e nunca tinha usado estas inovações...): na semana seguinte ao reconhecimento, na volta domingueira com a malta de Arruda, lá experimentei uns "géis" para ver se como era a coisa: realmente são melhores de digerir fisica e psicologicamente que as barras. Freneticamente lá encomendei gel via Nutribody, porque o gel recomendado pelo Rui Cardoso, vindo de Inglaterra, não chegaria a tempo do Audace.

Chegamos então à véspera do Audace - ou seja ao sábado passado. Aqui convém fazer um aparte: antes deste Audace, eu só tinha participado no Audade de Janeiro de Lisboa a Muge e volta. Se bem se lembram, não choveu em Janeiro, excepto num dia, exactamente no dia do Audace! Pelo meio realizaram-se três Audaces - um no Porto, outro no Algarve e o terceiro na semana passada na Amadora - e, rezam as crónicas, não choveu. Qual era então o cenário meteorológico para este Domingo? Chuva, pois claro! Pesquisa frenética em vários sites de meteorologia (IM, AccuWeather, Wind Guru, Weather.com) e conclusões nenhumas: cada um dava uma previsão diferente, mas todos davam altas probabilidades de chuva. Mais uma vez a minha faceta de "control freak" veio ao de cima e lá preparei o vestuário para todas as possibilidades, desde sol a chuva copiosa: deixei de fora furacões e neve :-). Resultado: dois sacos daqueles reutilizáveis dos supermercados com roupa, capacetes (sim levei 2, um mais aberto e outro mais fechado), sapatos, luvas, e bebida e gel energético.

5 da manhã de Domingo: levantar, comer um pequeno almoço de muesli de cereais com iogurtes, um café e magnésio para as cãibras. Chegada a Alpiarça por volta das 7 e 10, olhar para o céu, perceber que não iria escapar de uma boa molha, vestir o equipamento mais apropriado e fazer o "check-in" junto da organização do Audace. Aí encontro o José Almeida mais um amigo dele - o Arlindo - e o Jacob de Souza do NCA. Deveríamos ser uns 70 ou 80, de certeza menos que no Audade "Lisboa - Muge" onde estiveram cerca de 170. Os "cromos" do costume estavam lá: PNSC com a equipa em peso - é bonito ver tanta gente a pedar em conjunto - Carris e mais umas quantas equipas mais ou menos numerosas, nomeadamente ali da zona de Alpiarça e Cartaxo.

O percurso era bastante plano no inicio, e até ao primeiro ponto de controlo eram 62 kms para rolar. Saimos de Alpiarça, passámos Almeirim e começa a chuviscar. A velocidade inicial não era muita - rolávamos a cerca de 30 kms/h - a aproveitei para seguir o Zé Almeida e o Arlindo. O Jacob tinha desaparecido e só mais tarde percebi que andou mesmo lá pela frente a puxar ou pelo menos muito próximo da frente do pelotão.

Estranhamente estava a sentir-me bem e deu para ir conversando com o Zé Almeida e aprendendo como nos devemos colocar num pelotão de ciclismo numa prova como o Audace.

A chuva essa ia aumentando cada vez mais, e ouve alturas em que não via quase nada para além da roda traseira do tipo que ia à minha frente: os óculos estavam completamente cheios de água que dificultavam a visão... Ainda assim, rolava-se acima dos 30 kms/h e de vez em quando lá se puxava um pouco mais para os 40 kms/h. Com a lição aprendida e bem encaixado no primeiro terço do pelotão lá consegui manter-me na "frente da corrida". Deu para perceber que a malta, mesmo num Audace, não facilita a vida a ninguém: quando a velocidade apertava e o pelotão esticava de tal forma que ficávamos apenas em fila única ou quanto muito dupla, ninguém dava a roda para outro qualquer entrar...

E nestas andanças lá passámos o Porto Alto e finalmente a chuva parou. o primeiro posto de controlo (PC) aproximava-se e começou a colocação para a chegada ao dito cujo: toda a gente a tentar colocar-se bem à frente para carimbar o "road book" o mais cedo possivel e partir. Eu sendo novato nestas coisas de chegar a um PC integrado no pelotão da frente lá fui seguindo o Zé Almeida e a divertir-me com as manobras da malta para se chegar à frente. , O pelotão estava reduzido e nessa altura só devia ter cerca de 30 elementos. O Jacob tinha desaparecido e estava algures para trás.

Lá chegámos ao PC - que estava ao pé duma Loja de Vinhos e foi a confusão total para carimbar o "road book": parecia os bons e velhos tempos de Macau e a noção chinesa de "fila" que - para quem não sabe - é do género "tudo ao molho e fé em Deus"... O Zé Almeida resolveu fazer a sua "piss stop" ali e como resultado: perdemos o pelotão. Quase toda a malta carimbou e seguiu em frente sem parar ou abastecer de água !!!

Lá partimos - eu, o Zé e o Arlindo - e pelo caminho apanhámos um tipo de Alpiarça que se colou a nós. O Arlindo colocou o motor diesel a funcionar e lá começou a puxar por nós. O Zé ajudou um pouco e eu menos - já iamos com 65 kms em cima das pernas e estávamos a rolar próximos dos 40 kms/h para apanhar o pelotão. Adicionalmente, estavamos agora em terreno ondulante - tinhamos virado para Coruche - e como sabe quem me conhece, eu e as subidas temos uma relação não correspondida: eu gosto delas mas elas não gostam de mim :-) Mesmo assim lá conseguimos apanhar novamente o pelotão o que foi óptimo para o meu ego. Senti-me um ciclista a sério :-)

A alegria durou pouco porque por volta dos 80 kms não consegui acompanhar o pelotão da frente e tive que rolar à minha velocidade, que estranhamente se mantia nos 30 kms/h. Deviam ser os efeitos dos geis energéticos !!!!

Pouco depois de perder o contacto, vejo o Zé Almeida à minha frente com a roda traseira com um raio partido, e de tal forma empenada que batia nos dois calços do travão traseiro. Aquilo assustava só de ver mas o maluco continuava a rolar acima dos 30 !!!! Lá fizémos um comboio com um tipo de BMC TeamMachine qualquer coisa que ficou para trás - vês Hugo Pires, nem todos os BMCs andam bem :-) - e fomos apanhando mais uns caramelos que estavam a ser deixados para trás pelo pelotão da frente. Mais uma massagem ao ego: agora sentia-me um ciclista de topo a fazer uma corrida de trás para a frente :-) De vez em quando puxava na frente - contrariando a vontade do Zé que me dizia para ir na roda do BMC - mas confesso que me deu gozo puxar e ajudar um bocadinho a malta.

Chegados ao segundo ponto de controlo - em Coruche e cerca dos 110 kms - o Zé lá deu um jeito na roda e conseguiu que a mesma deixasse de bater nos calços. O único contratempo foi que perdemos o nosso comboio e tivemos que partir para os últimos 40 kms do percurso em dupla, o que torna sempre as coisas mais dificeis. Ainda por cima, estes eram os kms com mais ondulado da prova, o que juntando aos 100 e muitos kms que as pernas já levavam tornavam a coisa penosa. Adicionalmente, a famigerada chuva voltou em força. Quem não conhece o percurso de Coruche para a Raposa e depois para as Fazendas de Almeirim, aquilo no papel é simples: umas subidinhas seguidas de descidinhas e volta o disco e toca o mesmo. Já vos contei a minha relação amor-ódio com as subidas, certo? Bem, mesmo assim quando podia lá passava pela frente e ajudava a puxar. Mais uma vez e automagicamente eu e o Zé conseguiamos rolar nos 30 kms/h o que para mim era óptimo dado o terreno, os kms percorridos e a chuva.

Passámos novamente por fases em que a chuva e a água eram tão intensas que não consegui ver nada, e pela primeira vez na prova, senti as meias térmicas (umas de vários pares que tinha preparado no dia anterior, claro :-) ) completamente encharcadas. O Zé já bufava com as subidas que pareciam não ter fim, mas o homem até com um raio partido sobe melhor que eu!

Puxando um pelo outro lá chegámos ao PC 3 nas Fazendas de Almeirim onde comemos umas broas de mel que souberam a néctar dos Deuses. Ah, convém acrescentar que desde Coruche não conseguimos apanhar ninguém nem ninguém nos apanhou...

Do PC 3 até ao final eram cerca de 12 kms que passaram sem grandes problemas (se não contarmos com as dores nas pernas, mas essas já vinham desde o km 80...). Aprendi outra coisa: quando tens cãibras o melhor que tens a fazer é continua a pedalar como um louco !!!!

Voltando à prova, aí a cerca de 7 kms do final encontrámos o Arlindo que já tinha terminado a prova e voltado para trás para saber do Zé e acabámos a prova novamente em "foguetão de três estágios" : o Arlindo é aquele motor enorme que tira o foguetão do chão, o Zé é o motor que leva do foguetão para fora da atmosfera e eu sou o foguetãozinho que coloca o satélite na sua órbita final :-)

Chegámos assim de volta a Alpiarça às 13:10 e para mais uma massagem ao meu ego só ainda tinham chegado 28 ciclistas :-)

À chegada tinha a minha mulher e os meus filhos à espera, o que me também deixou muito contente, por puder partilhar com eles a alegria de ter alcançado com sucesso um objectivo a que me tinha proposto.

Depois da chegada, foi mudar de roupa, telefonar várias vezes para saber do Jacob (que não atendeu o telefone...) e ir almoçar a Almeirim para recuperar as forças. Só no regresso a Lisboa, por volta das 17:00 - tive novidades do Jacob: parece que se tinha enganado no percurso e fez mais umas dezenas de kms do que devia... Isto a juntar aos kms que tinha feito no sábado, pois foi de bicicleta de Lisboa a Alpiarça: "ganda" maulco !!!!

Enfim, ciclomalucos somos todos que andamos nestas andanças e é por isso que eu gosto de andar de bicicleta: para além da superação pessoal, dá um imenso gozo conviver com gente de todos os feitios e gostos !!!

Enfim, se conseguiste chegar a este ponto da minha crónica, um abraço e até um dia destes num passeio de cicloturismo, num Audace ou simplesmente numa volta domingueira !

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