Nasci em Moçambique e vim para Portugal - tal como largos milhares de portugueses - na altura do 25 de Abril. Sou portanto um "retornado".
Só voltei a África no final do ano passado e não foi a Moçambique (ou Angola, que está ainda mais na moda...): fui à Guiné-Bissau.
Não sabia nada sobre a a Guiné e as informações existentes na "net" não eram muito animadoras: sistema de saúde inexistente, água canalizada potável "idem-idem aspas-aspas" e electricidade com interrupções constantes (isto só para falar das coisas básicas...).
A preparação para a ida começou por uma visita ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical e que resultou na "toma" de 5 vacinas e um rol sem fim de medicamentos para levar para a Guiné, desde a simples aspirina até ao antibiótico de largo espectro. Ahh, e fui apresentado ao Malarone, o "amigo" que nos protege da malária...
A viagem de avião de Lisboa para Bissau decorre à noite, o que até não é mau, porque assim não dá para ver os detalhes quer do aeroporto quer da cidade em si. Chegámos a Bissau por volta das 2 da manhã e fomos recebidos por 30 e muitos graus e uma humidade que já não conhecia dos "bons velhos tempos" passados em Macau. O aeroporto de Bissau possui apenas um tapete rolante para a entrega das malas, e o recolher da mala que tinha despachado em Lisboa foi uma experiência por si só: demasiadas pessoas à volta do tapete rolante e no meio do dito uns tipos que iam retirando malas de uma forma aparentemente aleatória: o destino dessa malas era a "alfandega"...
Por alguma razão a minha mala escapou aos diligentes funcionários aduaneiros e foi com alivio que me juntei ao funcionário do hotel no "shuttle" com destino ao centro de Bissau. O aeroporto Osvaldo Vieira está ligado ao centro de Bissau através de uma estrada construída pelos chineses com 3 vias por faixa (estilo "segunda circular") mas que tem cruzamentos (alguns deles semaforizados outros nem por isso). Áquela hora, quase três da manhã, havia pouco ou nenhum trânsito na estrada, mas num dos cruzamentos uma motorizada com dois guineenses achou que tinha prioridade sobre os carros que se apresentavam pela sua direita e acabou por chocar com o carro que seguia à nossa frente. Isto tudo presenciado por mim como se estivesse num filme em câmara lenta. Até deu para dizer para os outros passageiros que "aquela mota vai chocar com o carro...". Enfim, para alguém que já estava de pé atrás com o país e as condições do mesmo, não foi propriamente a melhor recepção...
A manhã seguinte chegou depois de uma noite mal dormida por causa de toda a excitação causada por estar num país estranho, pelo rebuliço do aeroporto e pelo acidente na estrada. Também é azar: em 40 anos em Portugal nunca tinha presenciado - felizmente - um acidente. Vou a Bissau e "pimba" !!!
Após o pequeno-almoço - que até nem foi dos mais estranhos a nível de comida que eu já saboreei em viagem - começou a descoberta da cidade de Bissau. O hotel onde estava hospedado situava-se na avenida principal que ligava o cais do Pindjiguiti ao Palácio do Governo: imaginem a Praça do Marquês de Pombal e a Avenida da Liberdade (incluindo as laterais): esta Avenida é uma cópia "tropicalizada"...
A Bissau "antiga" foi desenhada a régua e esquadro e houve um cuidado urbanistico que - ainda nos dias de hoje - não é regra em Portugal: a zona residencial era/é constituída por vivendas de andar térreo e as ruas são largas e arborizadas. O problema é que desde a indepêndencia, a manutenção, tanto das vivendas como das estradas, não foi a prioridade principal ou não existiu de todo. Resultado: estradas esburacadas e com esgotos a correrem a céu aberto nalguns lugares e casas que apenas deixam vislumbrar algum do esplendor de antigamente.
A alimentação foi outra surpresa agridoce: em vez de ser um potencial problema e uma viagem de descoberta - acabámos por comer comida tipicamente portuguesa, igualzinha à que se come em Portugal. Numa próxima oportunidade tenho que experimentar comida tipicamente guineense...
Devido aos afazeres laborais não sobrou muito tempo na primeira visita a Bissau para conhecer a cidade e o país. Apesar de tudo o regresso a Lisboa foi mais uma aventura digna de ser contada.
Para quem não sabe, a Guiné-Bissau possui uma comunidade islâmica significativa e que está a aumentar a cada dia que passa. E como é que eu descobri isso em pessoa? Pois bem, no dia do regresso, consegui apanhar o - aparentemente único - "charter" de guineenses de regresso de Meca da Hajj. Como o Aeroporto não é propriamente grande, enquanto se dava a chegada do avião de Meca, o "check-in" para a partida para Lisboa esteve fechado. Resultado: duas horas de espera no parque de estacionamento meio iluminado do aeroporto à conversa com o motorista do "shuttle" do hotel e rodeado por algumas centenas largas de muçulmanos e muçulmanas que estavam à espera dos seus familiares que vinham agora "puros/purificados" de Meca.
Foi assim que fui apresentado à "irmã de pai e de mãe" do dito motorista. E porquê "irmã de pai e de mãe"? Porque o seu pai tinha 14 (catorze!) mulheres e 67 (sessenta e sete!) filhos e filhas: aquela mulher era a sua irmã do mesmo pai e da mesma mãe !!! Nos tempos idos e mesmo agora - a riqueza de um homem na Guiné media-se pelo número de filhos: quantos mais filhos, mais braços para trabalhar na horta e logo mais riqueza era produzida...
Conheci também um antigo combatente guineense do exército português que me perguntou se eu conhecia Santa Comba Dão: depois de lhe confessar que não ele contou-me a sua história. Foi ferido em combate em 1973 - quando combatia pelo exército prtuguês - e foi evacuado para o Caramulo onde ficou quase um ano a recuperar. Depois disso visitou Santa Comba Dão - e a estátua do Salazar - e algumas outras cidades portuguesas antes de regressar á Guiné.Confesso que fiquei tocado por aquela história e pelo facto de estar a falar com alguém com tanta "estória" de vida para partilhar.
Depois da aventura de duas horas no parque de estacionamento, o resto da viagem passou sem grandes sobressaltos se esquecermos o facto de o "raio X" no aeroporto estar avariado e as bagagens de mão terem sido embarcadas no avião sem terem sido vistoriadas.
Regressei à Guiné-Bissau na semana anterior à primeira volta das eleições presidenciais, e apesar da curta estadia, foi nessa altura que descobri que estava "enamorado" pela Guiné-Bissau, ou se calhar mais genericamente, por África. E foi assim que dei por mim a fazer "refresh" todos os minutos na página do blog de António Aly Silva - "Ditadura do Consenso" - no dia/noite do golpe de estado. E é assim que leio com tristeza que pessoas que conheci na Guiné-Bissau - Mario Mussante por exemplo - foram espancadas e estão a ser perseguidas pelos militares golpistas.
Olhando de fora e do conforto da minha casa, só posso ter pena por ver um país com potencialidade e que estava a progredir ser arrastado de novo para um turbilhão de problemas que não beneficia ninguém. Espero sinceramente que a "normalidade" regresse à Guiné-Bissau e que os guineenses se consigam entender e caminhar todos juntos na direcção de um futuro melhor.
Só voltei a África no final do ano passado e não foi a Moçambique (ou Angola, que está ainda mais na moda...): fui à Guiné-Bissau.
Não sabia nada sobre a a Guiné e as informações existentes na "net" não eram muito animadoras: sistema de saúde inexistente, água canalizada potável "idem-idem aspas-aspas" e electricidade com interrupções constantes (isto só para falar das coisas básicas...).
A preparação para a ida começou por uma visita ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical e que resultou na "toma" de 5 vacinas e um rol sem fim de medicamentos para levar para a Guiné, desde a simples aspirina até ao antibiótico de largo espectro. Ahh, e fui apresentado ao Malarone, o "amigo" que nos protege da malária...
A viagem de avião de Lisboa para Bissau decorre à noite, o que até não é mau, porque assim não dá para ver os detalhes quer do aeroporto quer da cidade em si. Chegámos a Bissau por volta das 2 da manhã e fomos recebidos por 30 e muitos graus e uma humidade que já não conhecia dos "bons velhos tempos" passados em Macau. O aeroporto de Bissau possui apenas um tapete rolante para a entrega das malas, e o recolher da mala que tinha despachado em Lisboa foi uma experiência por si só: demasiadas pessoas à volta do tapete rolante e no meio do dito uns tipos que iam retirando malas de uma forma aparentemente aleatória: o destino dessa malas era a "alfandega"...
Por alguma razão a minha mala escapou aos diligentes funcionários aduaneiros e foi com alivio que me juntei ao funcionário do hotel no "shuttle" com destino ao centro de Bissau. O aeroporto Osvaldo Vieira está ligado ao centro de Bissau através de uma estrada construída pelos chineses com 3 vias por faixa (estilo "segunda circular") mas que tem cruzamentos (alguns deles semaforizados outros nem por isso). Áquela hora, quase três da manhã, havia pouco ou nenhum trânsito na estrada, mas num dos cruzamentos uma motorizada com dois guineenses achou que tinha prioridade sobre os carros que se apresentavam pela sua direita e acabou por chocar com o carro que seguia à nossa frente. Isto tudo presenciado por mim como se estivesse num filme em câmara lenta. Até deu para dizer para os outros passageiros que "aquela mota vai chocar com o carro...". Enfim, para alguém que já estava de pé atrás com o país e as condições do mesmo, não foi propriamente a melhor recepção...
A manhã seguinte chegou depois de uma noite mal dormida por causa de toda a excitação causada por estar num país estranho, pelo rebuliço do aeroporto e pelo acidente na estrada. Também é azar: em 40 anos em Portugal nunca tinha presenciado - felizmente - um acidente. Vou a Bissau e "pimba" !!!
Após o pequeno-almoço - que até nem foi dos mais estranhos a nível de comida que eu já saboreei em viagem - começou a descoberta da cidade de Bissau. O hotel onde estava hospedado situava-se na avenida principal que ligava o cais do Pindjiguiti ao Palácio do Governo: imaginem a Praça do Marquês de Pombal e a Avenida da Liberdade (incluindo as laterais): esta Avenida é uma cópia "tropicalizada"...
A alimentação foi outra surpresa agridoce: em vez de ser um potencial problema e uma viagem de descoberta - acabámos por comer comida tipicamente portuguesa, igualzinha à que se come em Portugal. Numa próxima oportunidade tenho que experimentar comida tipicamente guineense...
Devido aos afazeres laborais não sobrou muito tempo na primeira visita a Bissau para conhecer a cidade e o país. Apesar de tudo o regresso a Lisboa foi mais uma aventura digna de ser contada.
Para quem não sabe, a Guiné-Bissau possui uma comunidade islâmica significativa e que está a aumentar a cada dia que passa. E como é que eu descobri isso em pessoa? Pois bem, no dia do regresso, consegui apanhar o - aparentemente único - "charter" de guineenses de regresso de Meca da Hajj. Como o Aeroporto não é propriamente grande, enquanto se dava a chegada do avião de Meca, o "check-in" para a partida para Lisboa esteve fechado. Resultado: duas horas de espera no parque de estacionamento meio iluminado do aeroporto à conversa com o motorista do "shuttle" do hotel e rodeado por algumas centenas largas de muçulmanos e muçulmanas que estavam à espera dos seus familiares que vinham agora "puros/purificados" de Meca.
Foi assim que fui apresentado à "irmã de pai e de mãe" do dito motorista. E porquê "irmã de pai e de mãe"? Porque o seu pai tinha 14 (catorze!) mulheres e 67 (sessenta e sete!) filhos e filhas: aquela mulher era a sua irmã do mesmo pai e da mesma mãe !!! Nos tempos idos e mesmo agora - a riqueza de um homem na Guiné media-se pelo número de filhos: quantos mais filhos, mais braços para trabalhar na horta e logo mais riqueza era produzida...
Conheci também um antigo combatente guineense do exército português que me perguntou se eu conhecia Santa Comba Dão: depois de lhe confessar que não ele contou-me a sua história. Foi ferido em combate em 1973 - quando combatia pelo exército prtuguês - e foi evacuado para o Caramulo onde ficou quase um ano a recuperar. Depois disso visitou Santa Comba Dão - e a estátua do Salazar - e algumas outras cidades portuguesas antes de regressar á Guiné.Confesso que fiquei tocado por aquela história e pelo facto de estar a falar com alguém com tanta "estória" de vida para partilhar.
Depois da aventura de duas horas no parque de estacionamento, o resto da viagem passou sem grandes sobressaltos se esquecermos o facto de o "raio X" no aeroporto estar avariado e as bagagens de mão terem sido embarcadas no avião sem terem sido vistoriadas.
Regressei à Guiné-Bissau na semana anterior à primeira volta das eleições presidenciais, e apesar da curta estadia, foi nessa altura que descobri que estava "enamorado" pela Guiné-Bissau, ou se calhar mais genericamente, por África. E foi assim que dei por mim a fazer "refresh" todos os minutos na página do blog de António Aly Silva - "Ditadura do Consenso" - no dia/noite do golpe de estado. E é assim que leio com tristeza que pessoas que conheci na Guiné-Bissau - Mario Mussante por exemplo - foram espancadas e estão a ser perseguidas pelos militares golpistas.
Olhando de fora e do conforto da minha casa, só posso ter pena por ver um país com potencialidade e que estava a progredir ser arrastado de novo para um turbilhão de problemas que não beneficia ninguém. Espero sinceramente que a "normalidade" regresse à Guiné-Bissau e que os guineenses se consigam entender e caminhar todos juntos na direcção de um futuro melhor.


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