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A Angústia do CicloMaluco no momento do Audace

Já sei que estão com saudades de mais uma crónica de "pseudo-intelectual frustado" por isso nada melhor que aproveitar para roubar a famosa expressão futebolistica "A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty" para exorcisar os meus fantasmas e falar sobre os dois últimos Audaces em que participei: o Audace do "Clube Estrela Verde de Constância" e sobretudo o "Audace da Torre".



A expressão "A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty" teve origem no livro de Peter Handke que Wim Wenders viria a transformar em filme em 1972.

Segundo a sinopse da Wook, "Neste livro, em que a angústia causada pelo penalty é um metáfora da vida, aspecto sublinhado no filme sobre ele feito por Wim Wenders, Peter Handke fala-nos de um amigo guarda-redes que depois de ser despedido do emprego assassina uma mulher sua ocasional amante e deambula num mundo que parece ter perdido todo o sentido".

A sinopse da IMDb sobre o filme de Wim Wenders é muito mais interessante: "A goalkeeper Josef Bloch is ejected during a game for foul play. He leaves the field and goes to spend the night with a cinema cashier. He then proceeds to strangle her the morning after.".

A sinopse detalhada é mais intelectual: "The Goalie's Anxiety at the Penalty Kick, completed in 1972, documents the warped journey of athlete Josef Bloch as he slowly and unhysterically transitions from a professional football goalie to a peripatetic madman.".

E o que é que toda esta pseudo-intelectualidade tem a ver com os últimos Audaces em que participei? Bem, a descrição do filme adapta-se em parte àquilo que se passou nesses eventos: não, não matei nenhuma amante de ocasião (a não ser a vontade de andar de bicla...), mas "viagem distorcida do atleta CicloMaluco à medida que ele lentamente e sem histerismos passa de ciclista amador para louco peripatético" parece-me uma boa "catch phrase" :-)

Já agora para quem não sabe, um peripatético não é um "pateta de qualquer espécie" mas sim "alguém que ensina caminhando ao ar livre". A propósito, Jesus Cristo era um peripatético.

Já agora - e porque a imaginação não é muita e tenho que encher chouriços nesta parte da crónica para ver se vos consigo demover de ler a parte realmente importante e que diz realmente respeito à minha experiência nos Audaces - o termo peripatético teve origem na antiguidade grega: em 335 A.C., depois da morte de Filipe da Macedônia, Aristóteles voltou para Atenas e fundou sua escola próximo do templo de Apolo. O local de encontro de Aristóteles e dos seus discipulos era uma colunata coberta, chamada em grego perípatos, e por esse motivo a escola aristotélica ficou conhecida como peripatética.

Agora que finalmente já consegui alienar 99% dos meus leitores - ainda estás por aí Hugo "BMC" Pires? E tu Zé Almeida? Parece que só sobras tu Luís Inácio :-), vou então falar dos famigerados Audaces.

A primeira metade do ano foi para mim um lufa-lufa de  provas de ciclismo: 3 eventos do Núcleo Cicloturista de Alvalade (NCA), 4 Audaces FPCUB - incluindo o Porto-Lisboa - e 3 Brevet Randonneurs Mondial - um de 200, outro de 300 e um de 400 kms, o Alqueva 400.

No total - e de 1 de Janeiro a 31 de Julho de 2013 - fiz 4443 quilómetros em cima de uma bicicleta divididos da seguinte forma: 1680 kms na bicicleta dos rolos e 2763 kms no "mundo real".

Talvez saturado com tanta andança ciclistica, a partir de Agosto descurei os treinos: confesso que já estava farto dos rolos e não treinei com o afinco que deveria. Resultado, a 1 de Setembro - data do Audace da Torre - tive mais um daqueles empenos monumentais que só são ultrapassados com muita força de vontade. Felizmente, força de vontade e gordura são coisas que tenho de sobra :-)

A coisa até não correu mal nos primeiros 84 kms da Guarda até Manteigas: segundo o meu Garmin, o acumulado nesta parte do percurso foram cerca de 1500 metros. O pior foram os 21 kms finais de Manteigas até à Torre: novamente segundo o Garmin subimos dos 785 aos 1925 metros - 1140 metros de acumulado. Posto assim é "apenas" um gradiente de 5,45% - mas acreditem que não é nada fácil aguentar 20 kms com esse gradiente médio. Como disse na micro-crónica, "Apesar de ter sido uma "subida aos céus" foi também uma "descida aos infernos"". Tive que parar umas três vezes durante a subida, sendo que numa delas tinha tantas cãibras que não consegui desmontar da bicicleta porque as pernas transformaram-se em dois troncos de árvore :-) Parecia um pirata com duas pernas-de-pau ! Enfim com os incentivos do Luis Inácio e do Arlando lá consegui retomar a subida e chegar aos 1993 metros (segundo os compêndios geográficos) da Torre da Serra da Estrela.

Mas a "não prestação" no Audace da Torre desmoralizou-me e precisei de 3 semanas até ter vontade de pegar numa bicla ou sentar-me na bicicleta de rolos. Resultado - mais uns quilitos na barriga e mais um Audace com empeno - desta vez o Audace do Clube Estrela Verde de Constância. Desta vez o empeno também se deu nos 20 quilómetros finais - depois do terceiro ponto de controlo - e obrigou-me outra vez a parar com cãibras a 300 metros da meta numa "parede" ali posicionada de propósito para me fazer humilde e quebrar o orgulho :-) Enfim, nada que não estivesse à espera: afinal quem não treina não pode esperar milagres...

E assim - pelo menos numas dezenas de metros - passei de pseudo-ciclista amador em peripatético caminhando a pé com a "burra" ao lado e filosofando sobre a vida :-)

A coisa boa de tanto empeno, é que a DRAP (a vontade "De Repente Apetece-me Pedalar") está de novo em alta e agora é treinar com afinco para os eventos de final de época: o BRM Tejo-Sorraia-Tejo e o Tróia-Sagres.

Ah, e já telefonei ao Chris Horner para saber que plano de treinos é que ele seguiu para conseguir ganhar a Vuelta com quase 42 anos :-)

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