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A Menina Pescadinha

Comecei a escrever este blog para colocar por escrito as minhas experiências da envelhescência, especialmente as que envolvem bicicletas e ciclismo. Mas como já escrevi aqui várias vezes, a escrita sobre um assunto - por exemplo uma sardinhada ou um magusto organizado pelo Núcleo Cicloturista de Alvalade a que pertenço - muitas vezes leva-me a questionar-me sobre outros assuntos e foi assim que eu já escrevi aqui sobre a Sardinha, o Bacalhau, e até sobre as origens das tradições de São Martinho.

Este post vem na linha dessas interrogações: depois de pesquisar sobre a Sardinha e as qualidades do Ómega 3, descobri a história da "Menina Pescadinha", ou seja, sobre a introdução da Pescada da Namibia na alimentação dos portugueses.

Vários estudos cientificos feitos nos últimos anos demonstraram que o consumo habitual de peixe como a Pescada e a Sardinha - fonte natural de ómega 3 - contribui para a redução do perímetro abdominal e da tensão arterial diastólica, diminuindo os riscos cardiovasculares.
 
Historicamente, a Namíbia (localizada no sudoeste africano, entre o Deserto do Kalahari e o Oceano Atlântico; faz fronteira com Botsuana e Zimbábue, a leste, África do Sul ao Sul e Angola e Zâmbia ao norte) tem um das zonas de captura de peixe mais produtivas do mundo, sobretudo devido ao sistema de correntes de Benguela: a natureza de afloramento costeiro deste sistema é responsável por uma diversificada e saudável população de peixe.


A Zona Económica Exclusiva (ZEE) da Namíbia contém cerca de vinte espécies comerciais diferentes, consistindo principalmente em pequenos pelágicos (sardinha, biqueirão, carapau e sarda) e lagosta ao longo das águas costeiras pouco profundas da plataforma continental, bem como pelágicos de maiores dimensões, incluindo carapaus adultos, pescada demersal e outras espécies de águas profundas (tamboril, linguado e caranguejo) em áreas mais afastadas da costa.

Era nas águas da Namíbia que os portugueses pescavam a "Pescada-do-cabo", nome vernacular comum da espécie Merluccius capensis.



Mas, ao contrário do Bacalhau - que podia e era salgado - a Pescada da Namíbia era eviscerada, retirada a cabeça e congelada a bordo.

E esta questão da "congelação do peixe" era ainda - há 30 anos - uma novidade para os portugueses: até aí a esmagadora parte do peixe que comiamos era salgado ou fresco. Foi assim que a "menina pescadinha" entrava na casa dos consumidores bradando o slogan: “Peixe congelado, alegria do cozinhado.

 Esta campanha da "menina pescadinha" promoveu o inicio do consumo massificado do peixe congelado em Portugal, e foi baseada em filmes de animação criados por Mário Neves, que enquanto enfermeiro a bordo do navio “Benguela”, desenhava (e posteriormente fez filmes de animação) para combater a monotonia da vida a bordo.

A "menina pescadinha" de tão personalizada que foi acabou por ficar uma amiga dos portugueses . E o resultado foi que o hábito de comer o peixe congelado entrou definitivamente nos nossos costumes.

Podem agradecer a esta campanha e à empresa  "Serviço de Abastecimento de Peixe ao País" (SAPP) todos aquelas refeições maravilhosas das nossas infâncias de pescada cozida :-)

Podem ver um video do SAPP de incentivo ao consumo do peixe congelado no YouTube em http://www.youtube.com/watch?v=-M-tcTI9YUc

A história do SAPP também é digna de ser contada. Tudo começou - de acordo com o blog "Al Sul" - com "As Casas dos Pescadores, criadas em 11 de Março de 1937, eram o elemento primário da organização corporativa do trabalho marítimo, no regime corporativo do Estado Novo. Existiam 29 em todo o país, presididas por inerência dos cargos, pelos Comandantes dos Portos, oficiais da Marinha de Guerra, sendo o Presidente da Junta Central das respectivas Casas dos Pescadores, o Almirante Henrique Tenreiro “patrão das pescas”.

O “problema económico” do abastecimento de peixe, tal qual Salazar o diagnosticara no rescaldo da primeira guerra mundial, assumiu maior acuidade sempre que a conjuntura económica interna e externa introduzia desequilíbrios entre a oferta e a procura, exercendo pressão sobre os preços. 


Nesses momentos o Estado redobrava cuidados com a gestão articulada das políticas de abastecimento dos produtos substitutivos do bacalhau e da sardinha, em particular do peixe fresco. Não admira, pois, que a criação de uma nova rede de distribuição de peixe fresco em Portugal continental, até aí apenas dependente da Junta Central das Casas dos Pescadores – o Serviço de Abastecimento de Peixe ao País “SAPP” – coincida no tempo com o arranque do programa estatal de promoção do peixe congelado e que ambas as coisas sejam concretizadas numa conjuntura de profundas alterações no mercado mundial de bacalhau salgado seco, e a segunda metade dos anos 50.
 

O Serviço de Abastecimento de Peixe ao País – “SAPP”, criado em 1956, tinha como finalidade orientar, coordenar e desenvolver a revenda do peixe de arrasto, dentro da orgânica corporativa estabelecida, a sua conservação, filetagem e quaisquer outras aplicações industriais, bem como a distribuição pelos processos julgados mais vantajosos para a economia nacional. Como serviço nacional de distribuição de peixe fresco, e a sua acção, quanto à regularização de processos de distribuição e estabilização de preços, foi depressa reconhecido como um verdadeiro serviço de utilidade pública, tinha como objectivo a cobertura total do País, assentando as grandes bases frigoríficas em Lisboa e Matosinhos com capacidade de 25 mil metros cúbicos. Daqueles dois grandes centros partiam diariamente algumas dezenas de camiões frigoríficos, de grande tonelagem, que transportavam o peixe para os centros consumidores."

Comentários

  1. Citei este seu excelente artigo num post do meu blog porque tenho o livro infantil da Menina Pescadinha. Caso não concorde com a postagem do link, por favor contacte-me. O link do meu post é: http://vade-mecum-pt.blogspot.pt/2013/01/a-menina-pescadinha.html

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  2. Sem problema Laura. Agradeço o interesse no meu post...

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