Abrindo uma nova frente de batalha na Guerra das Bifanas (ver O dia em que fiz 167 kms de bicicleta e A Raleigh e a Sachs), vou agora falar sobre a Sardinha :-)
A espécie que vive na costa portuguesa dá pelo nome científico de Sardina Pilchardus. Vive numa área alargada, que vai desde a costa do Senegal, em África, até ao Atlântico Nordeste, entre as ilhas Britânicas e a Escandinávia. Também vive no Mediterrâneo, mas é na linha de costa que vai desde o norte de Marrocos ao Golfo da Biscaia, na costa Atlântica de França, que existem os maiores stocks.
A sardinha representa quase metade do peixe, calculado em peso, que é vendido nas lotas portuguesas. Matosinhos, Sesimbra e Peniche são os principais portos pesqueiros de sardinha em todo o país.
O habitat da sardinha restringe-se essencialmente à plataforma continental, isto é, junto à costa e até profundidades de 200 metros. Trata-se de um peixe pelágico, ou seja, que vive exclusivamente nadando na coluna de água.
Tradicionalmente, em Portugal a sardinha era pescada segundo a "arte xávega": este método de pesca consiste em levar as redes a bordo de uma embarcação, que começa por deixar uma das extremidades da rede em terra e que depois as vai largando no mar. Uma vez terminada esta tarefa, a outra extremidade da rede é trazida para terra e puxada a partir da praia, outrora recorrendo ao auxílio de juntas de bois, actualmente por meio de tracção do guincho ou de tractores. Na Nazaré, a "arte xávega" foi introduzida em meados do século XVIII pelos pescadores vindos de Ílhavo e da Costa de Lavos. Com eles trouxeram as grandes redes de arrasto, que aqui foram modificadas e adaptadas às condições da costa, tornando-se mais pequenas e mais eficazes na faina. Também os barcos utilizados até então foram adaptados ao tipo de rebentação e ondulação da Nazaré, e assim nasceu o barco-de-bico ou da xávega da Nazaré.
Voltando à Sardinha, os movimentos migratórios desta espécie não são bem conhecidos mas estima-se que os cardumes circulem ao longo de toda a costa portuguesa. As zonas entre a Figueira da Foz e Aveiro, os estuários do Tejo e do Sado e o golfo de Cádis (em Espanha) são pontos conhecidos de maior concentração de sardinha.
Aves marinhas, mamíferos marinhos, outros peixes carnívoros e, claro, o homem são os predadores da Sardina Pilchardus. Esta por sua vez alimenta-se de plâncton – pequenos organismos que vivem à deriva na coluna de água e movimentam-se essencialmente em função do movimento das correntes.
Quando, no início de Abril, o vento sopra insistentemente de norte durante vários dias, os pescadores adivinham um Verão farto para a pesca na costa portuguesa, especialmente da pesca da sardinha, do carapau, e da cavala. A razão é simples e explica-se de forma científica: esta época do ano é caracterizada por um sistema de altas pressões sobre o oceano Atlântico, vulgarmente conhecido como "Anticiclone dos Açores". Em virtude da situação geográfica de Portugal continental relativamente ao anticiclone, os ventos provocados por este fenómeno atmosférico adquirem uma orientação a partir de norte ou noroeste, habitualmente designado por “nortada”.
Esta "nortada" desencadeia fenómenos de “upwelling”, ou seja, um surgimento à superficie do oceano de águas de camadas mais profundas. Estas águas são mais frias e ricas em nutrientes o que, graças à penetração dos raios solares, permite a realização da fotossíntese pelo plâncton que constitui a base da cadeia alimentar no meio marinho. Em resultado deste fenómeno, aumentam os cardumes de sardinha e e, claro está, o peixe torna-se mais robusto e apetecível.
As sardinhas adaptaram o seu ciclo reprodutivo ao aparecimento da "nortada" e do "upwelling": este ciclo acontece normalmente de Outubro até Abril, e durante este período, os peixes têm menos gordura. A partir do final da Primavera os peixes ganham gordura para preparar a nova época de reprodução e é por isso que, à medida que o Verão avança, as sardinhas ficam mais gordas. É por isso que a sardinha é comida em Portugal principalmente nos meses do Verão.
No fim disto tudo, o que é que a Sardinha tem a ver com ciclismo?
Em 2010, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA) divulgou um parecer científico sobre o consumo recomendado de Omega 3. Porém nem todos os Omega 3 são iguais. O “bom” Omega 3 é o de cadeia longa (como os ácidos eicosapentaenóico (EPA) e docosahexaenóico (DHA)), e o menos adequado, com poucos benefícios para a saúde, é o de cadeia curta. Adicionalmente vários estudos mostram que os ácidos gordos de cadeia longatêm efeitos benéficos na manutenção de uma boa saúde cardiovascular.
Peixes gordos como a sardinha, carapau, cavala, atum, salmão, são alimentos onde podemos encontrar grandes quantidades de EPA e DHA. Também espécies como o bacalhau e a pescada são ricas em ácidos EPA e DHA, com a vantagem de serem alimentos baixos em calorias. Outras espécies muito comuns em Portugal como o polvo, lulas, robalo, besugo, solha, camarão, tamboril, ostras, mexilhões, lagosta, berbigão e búzios, também contêm quantidades significativas destes ácidos Omega 3 de cadeia longa.
Portanto no próximo Verão - sejam ciclistas ou não - em vez de comprarem suplementos caríssimos que tenham Omega 3, comam simplesmente umas boas sardinhas da costa portuguesa, a pingar gordura para um bom pão caseiro :-)
A espécie que vive na costa portuguesa dá pelo nome científico de Sardina Pilchardus. Vive numa área alargada, que vai desde a costa do Senegal, em África, até ao Atlântico Nordeste, entre as ilhas Britânicas e a Escandinávia. Também vive no Mediterrâneo, mas é na linha de costa que vai desde o norte de Marrocos ao Golfo da Biscaia, na costa Atlântica de França, que existem os maiores stocks.
A sardinha representa quase metade do peixe, calculado em peso, que é vendido nas lotas portuguesas. Matosinhos, Sesimbra e Peniche são os principais portos pesqueiros de sardinha em todo o país.
O habitat da sardinha restringe-se essencialmente à plataforma continental, isto é, junto à costa e até profundidades de 200 metros. Trata-se de um peixe pelágico, ou seja, que vive exclusivamente nadando na coluna de água.
Tradicionalmente, em Portugal a sardinha era pescada segundo a "arte xávega": este método de pesca consiste em levar as redes a bordo de uma embarcação, que começa por deixar uma das extremidades da rede em terra e que depois as vai largando no mar. Uma vez terminada esta tarefa, a outra extremidade da rede é trazida para terra e puxada a partir da praia, outrora recorrendo ao auxílio de juntas de bois, actualmente por meio de tracção do guincho ou de tractores. Na Nazaré, a "arte xávega" foi introduzida em meados do século XVIII pelos pescadores vindos de Ílhavo e da Costa de Lavos. Com eles trouxeram as grandes redes de arrasto, que aqui foram modificadas e adaptadas às condições da costa, tornando-se mais pequenas e mais eficazes na faina. Também os barcos utilizados até então foram adaptados ao tipo de rebentação e ondulação da Nazaré, e assim nasceu o barco-de-bico ou da xávega da Nazaré.
Voltando à Sardinha, os movimentos migratórios desta espécie não são bem conhecidos mas estima-se que os cardumes circulem ao longo de toda a costa portuguesa. As zonas entre a Figueira da Foz e Aveiro, os estuários do Tejo e do Sado e o golfo de Cádis (em Espanha) são pontos conhecidos de maior concentração de sardinha.
Aves marinhas, mamíferos marinhos, outros peixes carnívoros e, claro, o homem são os predadores da Sardina Pilchardus. Esta por sua vez alimenta-se de plâncton – pequenos organismos que vivem à deriva na coluna de água e movimentam-se essencialmente em função do movimento das correntes.
Quando, no início de Abril, o vento sopra insistentemente de norte durante vários dias, os pescadores adivinham um Verão farto para a pesca na costa portuguesa, especialmente da pesca da sardinha, do carapau, e da cavala. A razão é simples e explica-se de forma científica: esta época do ano é caracterizada por um sistema de altas pressões sobre o oceano Atlântico, vulgarmente conhecido como "Anticiclone dos Açores". Em virtude da situação geográfica de Portugal continental relativamente ao anticiclone, os ventos provocados por este fenómeno atmosférico adquirem uma orientação a partir de norte ou noroeste, habitualmente designado por “nortada”.
Esta "nortada" desencadeia fenómenos de “upwelling”, ou seja, um surgimento à superficie do oceano de águas de camadas mais profundas. Estas águas são mais frias e ricas em nutrientes o que, graças à penetração dos raios solares, permite a realização da fotossíntese pelo plâncton que constitui a base da cadeia alimentar no meio marinho. Em resultado deste fenómeno, aumentam os cardumes de sardinha e e, claro está, o peixe torna-se mais robusto e apetecível.
As sardinhas adaptaram o seu ciclo reprodutivo ao aparecimento da "nortada" e do "upwelling": este ciclo acontece normalmente de Outubro até Abril, e durante este período, os peixes têm menos gordura. A partir do final da Primavera os peixes ganham gordura para preparar a nova época de reprodução e é por isso que, à medida que o Verão avança, as sardinhas ficam mais gordas. É por isso que a sardinha é comida em Portugal principalmente nos meses do Verão.
No fim disto tudo, o que é que a Sardinha tem a ver com ciclismo?
Em 2010, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA) divulgou um parecer científico sobre o consumo recomendado de Omega 3. Porém nem todos os Omega 3 são iguais. O “bom” Omega 3 é o de cadeia longa (como os ácidos eicosapentaenóico (EPA) e docosahexaenóico (DHA)), e o menos adequado, com poucos benefícios para a saúde, é o de cadeia curta. Adicionalmente vários estudos mostram que os ácidos gordos de cadeia longatêm efeitos benéficos na manutenção de uma boa saúde cardiovascular.
Peixes gordos como a sardinha, carapau, cavala, atum, salmão, são alimentos onde podemos encontrar grandes quantidades de EPA e DHA. Também espécies como o bacalhau e a pescada são ricas em ácidos EPA e DHA, com a vantagem de serem alimentos baixos em calorias. Outras espécies muito comuns em Portugal como o polvo, lulas, robalo, besugo, solha, camarão, tamboril, ostras, mexilhões, lagosta, berbigão e búzios, também contêm quantidades significativas destes ácidos Omega 3 de cadeia longa.
Portanto no próximo Verão - sejam ciclistas ou não - em vez de comprarem suplementos caríssimos que tenham Omega 3, comam simplesmente umas boas sardinhas da costa portuguesa, a pingar gordura para um bom pão caseiro :-)


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