Avançar para o conteúdo principal

São Paulo > Lisboa > Mação


Estou a escrever esta crónica no voo TP82 da TAP de Guarulhos (São Paulo, Brasil) de regresso a Lisboa. Acabámos de “jantar” e está uma “festa” (brasileira neste caso) no avião com miúdos a chorar e malta que está em pé a esticar as pernas a conversar alto e bom som. Ao meu lado dorme um tipo estranho que chegou ao avião já a cheirar a vinho e entretanto “emborcou” mais dois copos e já está a tombar para o meu lado. A viagem promete e ainda faltam 8 horas de voo…

 

Pela introdução já perceberam que não gosto especialmente de viajar. Não é que tenha medo de andar de avião, antes pelo contrário, não tenho medo nenhum e acho que as consequências de um acidente de carro ou de bicicleta são muito piores que as dum acidente de avião: num acidente de avião as hipóteses de sobreviver são baixas ou nenhumas enquanto que num outro tipo de acidente pode-se ficar incapacitado e isso para mim é pior.


A verdade é que eu não gosto de viajar por duas razões: a primeira é que não gosto da alteração da rotina e segundo, só comecei a viajar a sério depois de acabar a Faculdade aos 23 anos. Antes disso, e porque os meus pais não tinham possibilidades financeiras, só viajei em autocarro no interior de Portugal e dei a ocasional escapadela a Badajoz para comprar caramelos. A minha primeira viagem de avião foi em trabalho e foi simplesmente uma viagem Lisboa – Tóquio – Hong Kong – Macau – Lisboa! Imaginem o pânico em que eu estava quando entrei no avião em Lisboa a saber que iria descer em Tóquio que, convenham, não é propriamente a melhor cidade para um “tuga” aterrar sobretudo quando nunca tinha viajado para fora de Portugal! Ainda por cima isto foi no tempo “antes da Internet” e a informação que conseguias obter sobre a cidade, viajar ou qualquer outra coisa que necessitasses era limitada e difícil de obter.

Em relação a não gostar de alterações de rotina, não posso dizer muito para além do facto de ser um “animal de hábitos”, mas enfim, tudo isto não me impediu de viajar por quase todos os continentes (falta-me a Oceânia) diversas e variadas vezes.

E aqui estou eu novamente num avião a regressar de mais uma viagem de trabalho, desta vez a São Paulo no Brasil. Já tinha estado em São Paulo entre 1998 e 2000, numa outra vida “trabalhista” ou seja, por outra empresa e com objetivos diferentes.

Para quem não sabe, São Paulo é a maior metrópole do hemisfério sul com algo entre os 11 e os 18 milhões de habitantes (os valores variam consoante a fonte e os censos não são de fiar). O Estado de São Paulo tem mais ou menos a área da Península Ibérica e cerca de 44 milhões de habitantes.  Coisa pequena como podem ver :-)

O trânsito está um caos, muito pior do que lembrava nos finais dos anos 90, e o mesmo se aplica ao custo de vida: o salário mínimo passou dos 120 Reais (cerca de 60 Euros ao câmbio atual) em 2000 para cerca de 600 Reais (300 Euros) nos dias de hoje. O problema é que os restaurantes e tudo o resto também aumentaram proporcionalmente ao ponto de hoje, São Paulo ser uma cidade cara para portugueses e para a maioria dos europeus! Para terem uma ideia, uma “refeição normal” num “restaurante normal” (e por “normal” refiro-me a um restaurante semelhante a um restaurante onde iria almoçar diariamente em Lisboa) custa o dobro do que custaria em Lisboa.

São Paulo para mim é muito mais interessante que o Rio de Janeiro: o Rio é aquela cidade onde o mundo vai para conhecer o Brasil, enquanto que São Paulo é a cidade onde o Brasil incorporou o mundo e o transformou em algo único. O Rio é a cidade da praia, da caipirinha, do Carnaval e São Paulo é a cidade que transformou a cultura brasileira, portuguesa, italiana, japonesa, síria e libanesa (mas também muito outras) em algo que não se encontra noutros lugares do Brasil e até do mundo. O Rio é a cidade da “boa vida” e São Paulo é a cidade do “trabalho”. No fim, pode-se encontrar em São Paulo um pouco de todo o mundo e tudo o “bom e o “mau” do mundo está em São Paulo (dos melhores restaurantes aos piores problemas de segurança).

Voltando aos dias de hoje, esta viagem deu-me a oportunidade rever alguns amigos brasileiros dos tempos idos e alguns dos lugares “emblemáticos” da minha primeira passagem por “Sampa”: a Lorena (que é uma rua e não uma mulher !!!) onde ficava o “flat” onde morava, a J.K – Avenida Jucelino Kubitchek, a Churrascaria Jardineira, a Av. da Consolação, a Marginal Pinheiros, e a zona dos “Jardins”. Para uma próxima viagem, já tenho “agendado” uma visita ao “Bolinha”: o melhor restaurante de Feijoada à Brasileira de “Sampa”. A “Dado Beer” – uma micro cervejaria na J.K. já não existe mais e assim só me resta o boné que trouxe de lá há 10 anos atrás…

Voltando à viagem, uma coisa que não mudou foi o Aeroporto de Guarulhos: continua igual ao de 10 anos atrás e é assustador pensar no que vai acontecer na altura da Copa do Mundo, pois nitidamente o aeroporto não possui infraestrutura para o número de visitantes que se prevê que vá afluir a “Sampa”. Também não vi outras infraestruturas (estradas, “metrô”, comboios) a serem construídos, mas isso deve ser a costela portuguesa dos brasileiros que deixa tudo para a última da hora.

A viagem de táxi Guarulhos para o centro de São Paulo foi uma experiência reveladora do que é São Paulo: uma cidade frenética, a viver à beira do precipício e do desastre, caótica, congestionada, onde parece que vamos ter um acidente a qualquer momento mas onde tudo acaba por funcionar bem e de uma forma quase incompreensível para um europeu. Enfim, para terem uma ideia, íamos a 100 e muitos numa autoestrada de 4 faixas a metro e meio – literalmente !!! – do carro da frente e andávamos a ziguezaguear pela esquerda e pela direita a ultrapassar os carros mais lentos e a ser ultrapassados da mesma forma pelos mais rápidos !

Chegado ao “flat”no final do dia, e feito o check-inn,  fui jantar ao “Frevo” com o meu amigo Cláudio. Confesso que não percebo a fama do “Frevo”: supostamente tem os melhores “beiruths” de “Sampa”: um “beiruth” é basicamente uma sandwich redonda e como tudo no Brasil, pode ser de tudo e mais alguma coisa: eu comi um de carpaccio e o Cláudio um “beiruth” de milanesa (bife panado) se não me engano. A decoração é estilo “boteco retro” com não mais de uma dúzia de mesas simples de madeira. Primeiro impacto com o custo de vida: o jantar ficou em 30 Euros por cabeça. Por uma sandwich gigante e uma bebida é “puxadinho”. Enfim, o jantar valeu pela companhia e pela oportunidade de colocar a conversa em dia com o Cláudio.

No dia seguinte confirmei o que na noite anterior eram as suspeitas iniciais: a qualidade de vida no Brasil aumentou bastante a julgar pelos “sinais exteriores” de riqueza mais imediatos. Por exemplo, os automóveis já são da mesma geração que os carros que se veem na europa, e não modelos antigos que, deixando de serem fabricados na Europa, passavam a ser produzidos no Brasil, isto após sofrerem uma simplificação de design e equipamento para baixarem de custo, claro está. Em resumo, os Gol (não é erro ortográfico, é mesmo “Gol”) foram substituídos por modelos de última geração dos construtores e veem-se agora carros “premium” (Mercedes, BMW, Audi, Toyota, …) por todo o lado.

O trabalho no primeiro dia consistiu numa reunião a cerca de 15 kms do hotel o que – dado o trânsito congestionado – implicou duas viagens de quase hora e meia cada uma. Aproveitei para tirar fotos (que colocarei no blog assim que possível) a torto e direito a partir do táxi e para perceber que existe um “boom” de novos edifícios  por todo o lado.

O jantar desse dia tinha sido combinado com o Cláudio com o objetivo de conhecer um restaurante que servia comida brasileira “profunda”, ou seja, comida brasileira que não a feijoada, churrasco e afins. Surpresa ao chegar ao restaurante: era dia de “Menú Português” com bacalhau por todo o lado: desde as entradas até à sobremesa (quase) !!! Confesso que me faz confusão que reduzam a gastronomia portuguesa ao bacalhau, mas pensando bem, nós também fazemos o mesmo em relação a outras gastronomias, tipo “italiano” é massa e pizza…

Acabei por comer um “Atolado de Bode” que estava muito bom, e mais uma vez, o jantar valeu pela conversa e pela companhia do Cláudio e do Rafa, que como se tinha baldado no dia anterior ao jantar com o “padrinho” foi “castigado” com o pagamento do dito :-)

O segundo dia em São Paulo começou bastante cedo (saímos do hotel às 7 e meia da manhã, porque tínhamos uma reunião às 9 e 30 em São Bernardo do Campo – a 25 kms do hotel…) e terminou num dos restaurantes que contribuiu para o facto de eu ter engordado 15 quilos em cerca de ano e meio em São Paulo: a “Churrascaria Jardineira” no número 1001 da Avenida Bandeirantes.

Sei que nunca devemos voltar a um lugar onde fomos felizes no passado porque corremos o risco de destruir a imagem e os mitos que entretanto formos construindo na nossa mente, mas um dos colegas de trabalho que viajou comigo é fã incondicional de churrasco brasileiro e não podia estar no Brasil sem comer numa boa churrascaria. E assim sendo, lá fomos nós à “Jardineira”: eu com receio de destruir as minhas lembranças, e o meu colega ansioso por construir as suas!

Primeiro impacto: a “Jardineira” está igual em termos de decoração (interior e exterior) e a quantidade de empregados continua a ser a mesma! Quando se colocava o “semáforo verde” (para sinalizar que podiam trazer as carnes do rodizio) um tipo não conseguia estar 30 segundos sem que chegasse algum empregado com algum tipo de carne (todos bons por sinal). É claro que o copo também não chegava em algum momento a estar vazio porque havia sempre algum empregado que o enchia… Enfim, parecia que cada mesa tinha um empregado dedicado a tempo inteiro. Uma coisa que o Brasil está anos-luz à frente da Europa é no atendimento/serviço ao cliente!

Segundo impacto: a “Jardineira” já não tem caudas de lagosta grelhadas no buffet de saladas. Pelo que eu vi foram substituídas por sushi e sashimi. Uma substituição imperdoável para alguém como eu que comia um ou dois pratos de caudas de lagosta antes do churrasco propriamente dito :-)

Terceiro impacto: quando em 2000 pagávamos 40 a 50 Reais (20 a 35 Euros) por pessoa, desta vez pagámos 140 Reais (70 Euros) por pessoa. Enfim, uma vez sem exemplo…

Quarto impacto: comer churrasco à noite continua a ser uma boa forma de não conseguir dormir, ainda por cima se te empanturras, como é difícil que não aconteça quando a comida é tão boa e variada como na “Jardineira”. Resultado: no “café da manhã” do dia seguinte ainda continuava “cheio” do jantar da noite anterior!

Enfim, recomendo a “Jardineira” se vierem a Sampa, mas por favor almocem em vez de jantarem por lá :-) Eu do meu lado vou ter que fazer uns 500 kms de bicla para perder os quilos que ganhei nestes dias em Sampa !

O terceiro e último dia foi passado com uma reunião pela manhã e o regresso a Lisboa, com mais uma noite no avião que como habitualmente vai ser mal dormida (quem é que consegue dormir num avião quando não tens espaço para as pernas?). Amanhã espera-me uma chegada a Lisboa pelas 6 da manhã, ir a casa vestir um “terno” (como estamos ainda mais próximos do Brasil do que Portugal, escrevo “terno” em vez de “fato” :-)), pegar no carro e ir para Mação, algures no Ribatejo, para mais uma reunião de trabalho.  Isto é que é passar dos 80 para o 8 :-) De Sampa para Mação em 12 horas! 

De uma cidade de 11 milhões de habitantes para uma que provavelmente não tem sequer uma dezena de milhar de habitantes! Enfim, assim é a vida de um “globetrotter” :-)

O que é que retiro desta viagem? Várias coisas: primeiro gostei de reencontrar o Cláudio e o Rafa e saber que está tudo bem com eles. O Cláudio continua igual e o Rafa – como ele próprio disse – “encontrou” os quilos que eu e o Rui Cardoso “perdemos” desde que regressámos do Brasil em 2000 e picos :-)

Segundo, São Paulo é agora – mais do quem em 2000 – uma cidade vibrante e onde o otimismo reina. Tem-se a sensação que tudo é possível e a crise que assola a Europa é uma coisa que ainda aqui não chegou e que parece que não vai chegar nos tempos próximos. A propósito, assim que entrei no avião da TAP puseram nos monitores de voo o Telejornal da RTP 1 com o seu chorrilho de notícias deprimentes: desemprego, pancadaria no Parlamento da Madeira, políticos a dizerem baboseiras populistas… Portugal está mesmo deprimente e deprimido e isso ainda se nota mais depois de alguns dias em São Paulo onde temos a sensação que nem o céu é o limite…

Finalmente, questiono-me sobre a sustentabilidade do crescimento do Brasil: apesar da boa impressão com que fiquei de São Paulo, não é possível ter um custo de vida tão elevado, sem que mais tarde ou mais cedo e ao primeiro “soluço” da economia, não exista uma grande faixa da sociedade que vá sofrer e regredir na qualidade de vida. Enfim, espero que para bem dos brasileiros e até dos portugueses, as coisas corram bem e o Brasil continue a desenvolver-se e que a riqueza gerada seja distribuída de uma forma mais justa do que foi no passado!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

José Bento Pessoa

Quando ouvi falar a primeira vez de José Bento Pessoa foi provavelmente como a maioria das pessoas: esse era o nome do estádio situado na Figueira da Foz onde joga a Naval 1º de Maio e que foi inaugurado em 1953. Mas a beleza de andar a "chafurdar nos recantos da história" (ver Primeira Prova de Ciclismo em Portugal? ) é que tropeçamos em novelos de estórias que nos levam a novos caminhos e a descobertas interessantes: assim foi o caso com a descoberta de José Bento Pessoa e das suas façanhas no ciclismo. José Bento Pessoa nasceu a 7 de Março de 1874, na da Figueira da Foz, cidade onde passou a sua infância, fez a instrução primária e depois completou os seus estudos com aulas particulares. Acabados os estudos foi trabalhar para a loja de seu pai - uma sapataria (tal como Onofre Tavares mais tarde...). Mas o jovem Bento Pessoa não estava talhado para a venda de sapatos, e cedo se envolve na prática desportiva: natação remo, atletismo, e até foi guarda-redes de fute...

Museu do Ciclismo - Caldas da Rainha

No passado fim-de-semana tive o prazer de visitar o Museu do Ciclismo:   o artigo do número quatro da revista B - Cultura da Bicicleta   tinha-me despertado a atenção, e assim resolvi ocupar uma tarde domingueira e chuvosa a visitar in loco o museu que está situado na Rua de Camões nº 57, junto ao Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha. O museu foi inaugurado em 14 de Dezembro de 1999. Calhou também que tive a sorte de poder conversar um bom bocado com Mário Lino, que está desde à muitos anos ligado à história e dinamização do ciclismo nas Caldas da Rainha e que doou grande parte do espólio actual do Museu. [CicloMaluco com Mário Lino e Sónia Fernandes do Museu do Ciclismo] Este senhor, actualmente com 65 anos, transpira histórias sobre tudo o que gira à volta do ciclismo. Foi ele que me chamou a atenção para algumas preciosidades presentes no museu, como o primeiro selo emitido no mundo com uma bicicleta desportiva, ou um tandem onde - ao contrário do habi...

Os dois caminhos para Fátima

Para quem quer ir de Lisboa até Fátima de bicicleta existem dois caminhos "miticos": pelo "Covão do Coelho" ou então por "Torres Novas". A minha primeira experiência com o Covão do Coelho foi um pouco traumática (ver Crónica do Sobral - Fátima 2012 ) e por isso este fim-de-semana resolvi fazer uma nova investida e "testar" as pernas e a (falta de) forma, não só no Covão do Coelho mas também na subida "por Torres Novas". Assim no sábado passado lá parti da casa dos meus pais em Casével rumo a Fátima. Após uns primeiros 25 quilómetros que serviram para aquecer as pernas e a alma chegou a primeira dificuldade do dia: a subida "de Alcanena pela N243".  Na realidade a N243 passa ao lado de Alcanena, atravessando isso sim Lameiras, Moitas Vendas e Casais Robustos até desembocar no topo de uma pequena garganta entre a Serra de Santo António e a A1, com vista priviligiada sobre Minde. O meu Garmin registaria no fim, u...